Paul Theroux – “Foi por medo de avião…”

“Que eu segurei pela primeira vez na sua mão”, como diria o Belchior do tempo dos meus pais. Não há dúvidas de que segurar na mão de alguém na hora do medo é o que existe de mais tranquilizador. Se for da “pessoa amada”, tanto melhor! Mas dizem que a Lady Di também ficou muito amiga da embaxatriz Lúcia Flecha de Lima depois de uma tempestade com grande turbulência de avião em terras brasileiras, quando esta acalmou a princesa. Verdade ou não, amizades e amores que começam dentro do avião onde uma das pessoas tem medo já foi tema de filme e é um assunto bastante curioso. Afinal, muitas vezes, é lá onde estão as dificuldades, e em sua superação, que muitas histórias de cumplicidade desabrocham com intensidade.

Bem, este texto foi escrito há alguns meses, porém, neste momento, por diversos motivos, parece fazer todo o sentido publicá-lo, já que acabamos de voltar de ma viagem em que estes temas estiveram presentes mais uma vez.

A idéia deste post, na verdade, surgiu para voltar ao território do viajante no blog, aproveitando uma conversa que tive com uma amiga, ainda durante as últimas férias escolares, justamente sobre um medo em comum de avião. Por tudo isto, resolvi fazer um post com a citação de mais uma das minhas referências preferidas (a esta altura, já ficou claro para o leitor que este blog é também uma eśpecie de quebra-cabeça-mosaico de trechos de livros, quadros, comentários de pessoas ou filmes que me marcaram). A ideia é também dividir com vocês um texto que acho muito representativo do que significa, para mim, a viagem de longas distâncias verdadeiramente falando, ou seja, as grandes jornadas (a idéia do peregrino em contraste com o turista – para quem assistiu à palestra do Ives de la Taille da CPFL Cultura que postei há algum tempo, nas palestras sobre Educação). Para quem não assisitu a esta palestra, ela é – para além do contexto da viagem – uma grande crítica aos valores dos tempos atuais. Tempos em que se valoriza sempre a chegada, esquecendo-se da trajetória que fez com que chegássemos até lá, ou seja, esquecendo-se da idéia de “construção”, tão importante para a vida – seja qual for o plano da vida para o qual nosso olhar estiver focado!

Voltando ao texto que apresentarei, trata-se de parte da introdução do livro “The Old Patagonian Express”, do autor Paul Theroux. Por muito tempo o Luis sugeriu que eu fizesse esta leitura, já que o autor é um dos seus preferidos sobre o assunto de viagens, um assunto tão caro a nós dois. Porém, confesso que como não uso o inglês com tanta regularidade quanto gostaria, sempre fico com certa preguiça de ler nesta língua, pela lentidão do meu vocabulário. No entanto, no ano retrasado, após voltar de uma viagem em que fizemos um trecho relativamente comprido de trem (de São Francisco a Seattle, uma noite inteira e parte de um dia), ficamos muito surpresos e felizes com a experiência. Na verdade, não imaginávamos que no país dos aeroportos e dos aviões pudéssemos ter uma experiência tão agradável sobre os trilhos. Assim, quando voltamos ao Brasil, resolvi embarcar nesta viagem literária do Paul Theroux que começa em Boston rumo à Patagônia justamente de trem.

Além disto, como já falei, é um texto muito bem-humorado (ou talvez o contrário – escrito exatamente por um autor um tanto quanto mal-humorado!) na sua referência às viagens de avião, já que ele parece ser, como eu, alguém que também padece do tal medo. Por isto, eu dedico alguns destes parágrafos aos meus queridos companheiros de medo de avião! 🙂 . É  dedicado também (um pouco ironicamente, embora muito carinhosamente também!) ao meu querido irmão, que teve como um dos seus grandes sonhos de vida trabalhar como engenheiro projetista de aviões e seguiu este sonho com tanta coragem e sucesso. Digo isto com orgulho de irmã! E assumo que até me emocionei quando o primeiro avião do qual ele trabalhou no projeto voou pela primeira vez (quase com a mesma emoção de alguém que vê uma criança andar pela primeira vez depois de tantas noites em claro – diga-se de passagem, quem trabalha ou já trabalhou com projetos, de qualquer tipo, também sabe do que estou falando…: ver a coisa “rodando”, funcionando ou voando!, depois de tanto trabalho é mesmo de mexer com as emoções! Meu irmão é sempre meu consultor sobre as quedas famosas de avião. E sempre começa rindo e dizendo: “veja bem, em primeiro lugar, o avião que teve problemas não era da companhia para a qual eu trabalho!” (Algumas piadas são típicas do meio!)

Nesta mesma viagem em que fizemos o percurso de trem, este tema do medo já tinha aparecido. Não apenas pelo meu nervosismo de sempre – mãos suadas na decolagem, aterrisagem e momentos de turbulência; um ritual enorme antes de entrar no avião (algumas garrafas de água para aguentar o ar seco sem ter que ficar pedindo para a aeromoça toda hora, chicletes para melhorar a sensação do ouvido na decolagem e aterrisagem, a necessidade de tomar um vinho ou um Dramin em viagens maiores para poder relaxar etc.) – , mas, também, por outras coincidências. Ao chegarmos em Dallas e entrarmos na fila dos passaportes estavam na nossa frente dois homens de idade próxima à nossa, que pareciam estar em viagem a trabalho para algum curso da empresa (pareciam ser da Embraer). Um deles dizia para o outro que sua mulher precisou de um tratamento de mais de um ano com duas sessões semanais de terapia para conseguir viajar de avião pela primeira vez. Agora, eles já podiam fazer viagens curtas, como para a Bahia; mesmo assim, abaixo de vários remédios calmantes e sempre com a condição de que não saíssem em mau tempo e de que os vôos fossem sempre de aviões da Embraer ou da Boeing e jamais da TAM (bem, parece que alguns assuntos são mais do que apenas piadas do meio!). Achei engraçado e, enquanto pensava “tomara que o tempo esteja bom entre Dallas e São Francisco”, pensava também: tem gente muito pior do que eu neste assunto! Logo depois que voltarmos ao Brasil, saiu uma coluna do Ferreira Gular na Folha de São Paulo extremamente bem-humorada, falando justamente sobre o medo dele de avião e sua decisão de nunca mais pisar em um! (a coluna é do dia 8 de agosto de 2010 – assim que der, farei um post com seu conteúdo). Então, quando comecei a ler o livro, o assunto estava totalmente em alta para mim e me diverti muito!

Segue o texto… Apenas para contextualizar, ele está explicando a motivação de tão longa viagem de trem, assim como a motivação do próprio livro, fazendo também uma crítica aos muitos livros de viagem que começam já no seu destino, ao invés de descever a trajetória até o autor, ou personagem, chegar até lá. Grifei as partes mais relevantes para quem tiver preguiça ou dificuldade de ler tudo em inglês.

Travel is a vanishing act, a solitary trip down a pinched line of geography to oblivion.

“What’s become of Waring

Since he gave us all the slip?”

But travel book is the opposite, the loner bouncing back bigger than life to tell the story of his experiment with space. It is the simplest sort of narrative, an explanation which is is own excuse for the gathering up and the going. It is motion given order by its repetition in words. That sort of disappearance is elemental, but few come back silent. And yet the convention is to telescope travel writing, to start – as so many novels do – in the middle of things, to beach the reader in a bizarre place without having first guided him there. “The white ants had made a meal of my hammock”, the book might begin; or, “Down there, the Patagonian valley deepened to Grey rock, wearing its eons stripes and split floods.” Or, “From the balcony of my room I had a panoramic view over Accra, capital of Ghana (Which Tribe Do You Belong To? By Alberto Moraiva).

My usual question, unanswered by these – by most – travel books, is: How did you get there? Even without suggestion of a motive, a prologue is welcome, since the going is often as fascinating as the arrival. Yet, because curiosity implies delay, and delay is regarded as luxury (but what the hurry, anyway?), we have become used do life being a series of arrivals or departures, of triumphs and failures, with nothing noteworthy in between. Summits matter, but what of the lower slopes of Parnassus? We have not lost faith in journeys from home, but the texts are scarce. Departure is described as a moment of panic and ticket-checking in an airport lounge, or a fumbled kiss at a gangway; then silence until, “From the balcony of my room I had a panoramic view over Accra…”

Travel, truly, is otherwise. From the second you wake up you are headed for the foreign place, and each step (now past the cuckoo clock, now down Fulton to the Fellsway) brings you closer. …

The literature of travel has become measly, the standard opening that farcial-against-the-porthole view from the plane’s titled fuselage. The joke-opening, that straining for effect, is now so familiar it is nearly impossible to parody. How does it go? ‘Below us lay the tropical green, the flooded valley, the patchwork quilt of farms, and as we penetrated the cloud I could see dirt roads threading their way into the hills and cars so small they looked like toys. We circled the airport and, as we came in low for landing, I saw the stately palms, the harvest, the rooftops of shabby houses, the square fields stitched together with crude fences, the people like ants, the colorful…’

I have never found this sort of guesswork very convincing. When I am landing in a plane my heart is in my mouth; I wonder – doesn’t everyone? – if we are going to crash. My life flashes before me, a brief selection of sordid and pathetic trivialities. Then a voice tells me to stay in my seat until the plane comes to a complete stop; and when we land the loud-speakers break into orchestral version of Moon River. I suppose if I had nerve to look around I might see a travel writer scribbling, ‘ Below us lay the tropical green – ‘. (Nota: esta descrição da aterrisagem é demais!!!)

Meanwhile, what of the journey itself? Perhaps there is nothing to say. There is not much to say about aeroplane journeys. Anything remarkable must be disastrous, so you define a good flight by negatives: you didn’t get hijacked, you didn’t crash, you didn’t throw up, you weren’t late, you weren’t nauseated by the food. So you are grateful. The gratitude brings such relief your mind goes blank, which is appropriate, for the aeroplane passenger is a time-traveler. He crawls into a carpeted tube into that is reeking of disinfectant; he is strapped in to go home, or away. Time is truncated, or in any case warped: he leaves in one time-zone and emerges in another. And from the moment he steps into tube and braces his knees on the seat in front, uncomfortably upright – from the moment he departs, his mind is focused on arrival. That is, if he has any sense at all. If he looked out the window he would see nothing but the tundra of the cloud layer, and above is empty space. Time is brilliantly blinded: there is nothing to see. …

But apologies are not necessary. An aeroplane flight may not be travel in any accepted sense, but it certainly is magic. Anyone with the price of a ticket can conjure up castled crag of Drachenfels or the Lake Isle of Innisfree by simply using the right escalator at, say, Logan Airport in Boston – but it must be said that there is probably more to animate the mind, more of travel, in that one ascent on the escalator, than in the whole plane journey put together. The rest, the foreign country, what constitutes the arrival, is the ramp of an evil-smelling airport. If the passenger conceives of this species of transfer as travel and offers the public his book, the first foreigner the reader meets is either a clothes-grubbing customs man or a mustached demon at the immigration desk. Although it has become the way of the world, we still ought to lament the fact that aeroplanes have made us insensitive to space; we are encumbered, like lovers in suits of armour.

This is obvious. What interests me is the waking in the morning, the progress from familiar to the slightly odd, to the rather strange, to the totally foreign, and finally to the outlandish. The journey, not the arrival, matters; the voyage, not the landing. Feeling cheated that way by other travel books, and wondering what exactly it is I have denied, I decided to experiment by making my way to travel-book country, as far south as the trains run from Medford, Massachusetts; to end my book where travel books begin.

Anúncios

2 comentários em “Paul Theroux – “Foi por medo de avião…”

  1. Alexandre disse:

    Oi Neca. Demorou, mas eu finalmente li! Obrigado pelo dedicatoria, a descricao do primeiro voo nao podia ser melhor. O segundo filho ja vai fazer 3 anos e o terceiro esta a caminho.
    Ah, tambem li o blog do Frick, e a chegada a NY. As vezes o voo acaba fazendo parte da jornada…

    • elisas disse:

      Com certeza,a criação dos avisões é uma grande jornada! Coloquei dois novos posts com fotos da viagem à Boulder: você vai gostar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s