Meu Encontro com Proust

Recentemente, eu o Luis e as crianças fizemos uma viagem por lugares da minha remota infância, nos Estados Unidos. Algumas semanas antes desta viagem, enquanto eu terminava os últimos preparativos, ou ainda, me preparava emocionalmente para revisitar meu passado, meu filho mais velho trouxe como lição de casa fazer uma pesquisa sobre o livro que o pai ou a mãe mais gostaram de ler. “Que delícia de lição”, logo pensei!.

Pois bem, pensei em muitos livros; pensei nos meus autores preferidos, na verdade mulheres – Clarice Lispector e Virgínia Woolf-, mas não tive muita dúvida em responder que era “Em Busca do Tempo Perdido”. Expliquei a ele um pouco do que se tratava o livro e segui dando uma longa justificativa sobre o meu interesse. Meu filho disse, então: “está bom mãe, não precisa falar tanto! Não vou escrever tudo isto…” Acho que nesta idade eu também não gostava muito de escrever; acredito que seja normal um certa economia de palavras no texto para aqueles que estão começando a dominar o código da escrita (não apenas para prevenir os erros de ortografia e gramática, que ainda acontecem com frequência – e sempre acontecerão!-, mas também para não nos expormos demais – afinal, a escrita é sempre um grande exposição!). Eu disse a ele que a justificativa era mais importante do que o nome da obra, pois o que importa não é o livro, mas o que este livro significa para um (e cada) leitor, em especial. Então, abreviei um pouco meu relato, explicando apenas que se tratavam de memórias, muitas de infância, e que a primeira sensação que tive ao pegar o livro nas mãos e ler as primeiras 2 ou 3 páginas foi de certeza de que eu me encantaria pela narrativa, quase com a sensação de que eu já conhecia esta história antes mesmo dela ser contada. (Quem quiser apreciar algumas destas páginas iniciais, elas foram colocadas no blog, no post anterior.) Meu filho acabou de escrever a lição, fechou o caderno e o guardou na mochila. Eu, no entanto, continuei pensando no livro pelo resto do dia… Até porque, a história da minha relação com o livro se cruzava também com a história do nascimento do meu filho, de uma forma curiosa, como vocês verão mais adiante.

Lembrei-me que fui apresentada ao livro por um professor de uma das minhas matérias do curso de filosofia; um curso relacionado à chamada Escola de Frankfurt, sobretudo a Adorno e suas relações com Walter Benjamim, importante crítico e tradutor de Proust. O professor nos disse que não seria obrigatório ler este livro, mas que ninguém perguntasse a ele quais eram as páginas onde se encontrava a célebre passagem da Madeleine, pois ele não diria, de jeito nenhum! Para quem nunca ouviu falar desta passagem, trata-se do momento em que – após tentar repetida e frustradamente buscar suas memórias diretamente através da sua consciência – o narrador finalmente chega a elas através de uma forma inesperada, ao provar um doce que não comia havia muito tempo, a madeleine, e sentir um gosto familiar de sua infância. Segundo o professor, se alguém quisesse lê-lo, como referência, teria que lê-lo por inteiro, senão seria como assassinar o livro. Bem, isto fazia total sentido com o tema do curso, já que uma das indagações dos críticos de Proust era entender como era possível um livro de 7 volumes, com narrativas longas e parágrafos (ou mesmo frases!) de várias páginas sobreviver em tempos do capitalismo, onde as engrenagens do famoso filme do Chaplin Tempos Modernos parecem atropelar o tempo e a relação das pessoas com ele, fazendo com que tudo seja experimentado em quantidades fracionárias, mais palatáveis ao mundo do consumo. Diga-se de passagem, toda esta discussão em tempos em que a internet nem era um sonho ainda! Mas a ideia da fragmentação do tempo e da experiência humana  já se anunciava, de certa forma, conceitualmente. Neste contexto, fiquei curiosa e, embora o trabalho final do curso fosse na verdade sobre um texto crítico de Adorno à peça de Samuel Beckett (Fim de Partida – ou Fim de Festa), resolvi comprar pelo menos o primeiro volume da narrativa de Proust e ver se eu conseguiria me entregar àquilo que ainda não estava claro se seria uma difícil ou prazerosa tarefa. Como eu já disse, a resposta vocês já sabem! Fiquei absolutamente encantada! A maneira tão subjetiva de contar a sua relação com o mundo, com o espaço e com o tempo era absolutamente magnetizante; não era preciso justificar mais sobre a importância de Proust na história recente da literatura mundial. Assim, chegar até o famoso trecho da Madeleine não foi nenhum castigo, mas puro deleite. Bem observado que tudo isto ocorreu em tempos onde o “Meu tempo” era de fato “todo Meu” e eu podia dispor dele como bem quisesse! Tanto gostei do livro, que no final do ano meu irmão me deu o segundo volume de Natal, o qual li também interessadamente. Depois disto, no entanto, o tempo ficou mais escasso, acabei inclusive abandonando o curso por motivos de mudanças de horário de trabalho (já que esta era minha segunda graduação…) e, desta forma, os dois primeiros volumes de Em Busca do Tempo Perdido foram guardados nas prateleiras, sem o restante de seus companheiros. Confesso que pelo mesmo argumento do meu professor, jamais pensei em comprar o último volume da coleção (o número 7) apenas para saber o final. Inclusive porque, neste caso, estava claro que o final não parecia ser o importante, mas sim a narrativa. O processo da memória, afinal, também pode ser encarado com uma grande viagem; enfim, uma jornada!

Alguns anos depois, já desligada do curso de filosofia, resolvi retomar a ideia de fazer alguns cursos como ouvinte, agora no Instituto de Línguas, que oferecia uma grade noturna mais compatível com meus horários de trabalho. Foi então que fiquei grávida, justamente do meu primeiro filho, e quando estava já no final da gravidez, resolvi fazer um curso  sobre Proust. Meu filho nasceria duas semanas após o início do curso, então procurei a professora e disse a ela que estava muito interessada; no entanto, eu teria que fazer uma breve interrupção no meio, quando nascesse meu filho, embora pretendesse voltar ainda antes do curso acabar. Ela sorriu e disse que não haveria problema, mas que achava difícil eu voltar depois do nascimento. Porém, assim foi. Depois do nascimento, desapareci por um mês e em seguida retornei. Ela riu, mais uma vez, e disse: “eu realmente não acreditava que você pudesse voltar!” Como o curso acontecia entre 7 e 11 da noite, com um intervalo no meio, combinei com ela que assistiria apenas uma das partes da aula, de 1 hora e 50 min (+-): alguns dias seria a primeira parte, outros a segunda, dependendo do horário de mamada do meu filho no dia (quem é mãe sabe que bebês pequenos tem horários meio inconstantes…). Ela concordou e assim seguimos. Certo dia, até me usou como exemplo para discutir a relação da criança com o tempo e disse: “Imaginem que o filho da Maria Elisa já tem uns 3 anos e ela quer ir com ele, à pé, numa feira perto de sua casa num domingo de manhã. Mas ela tem que voltar logo para terminar o trabalho do curso para o dia seguinte.” Então perguntou à turma: “Vocês acham que ela conseguirá ir rápido?” E respondeu também ela mesma: “Claro que não! Pois o filho pequeno vai querer parar a cada 2 metros da caminhada, entretendo-se com tudo que ele vir pela frente. Terá um compromisso apenas com o “agora”, não se ligando na relação com o depois ou com as consequências da passagem do tempo.” Todos riram, é claro, e,  também é claro, realmente não demorou muito para eu entender do que ela estava falando… (Rsrsrs de mãe!) Mas, voltando ao Proust, após a discussão de trechos de alguns dos volumes iniciais, ela pediu que comprássemos o último volume para amarrar algumas ideias do curso, bem como para discutirmos o sentido da experiência da Lembrança para Proust . Neste contexto, me senti totalmente autorizada a cometer o que eu considerava um “crime”, ou seja, dar um grande salto na obra até o seu final sem ter lido tudo o que estava no meio!

Como adoro parênteses – não disfarço – aqui vai um, apenas para comentar um fato cômico, do qual as mães vão rir muito e talvez, algumas, possam até ficar horrorizadas. Num dos últimos dias de aula, quando cheguei em casa, por volta de 9:30 da noite, talvez mais tarde – não me lembro muito bem-, não encontrei o Luis nem meu filho no apartamento. Apenas um bilhete: “Estamos no Empório do Nono” (um bar que ficava a menos de uma quadra de casa, naquela época). Gelei até a espinha (meu filho tinha apenas 2 meses!) e saí correndo como uma flecha em direção ao bar. Quando entrei – era um dia chuvoso – estavam todos apertados no bar lotado no meio do ambiente esfumaçado de cigarro e de muito barulho (naquela época, ainda não era proibido fumar em lugares públicos fechados) e lá estava o Luis com seus amigos conversando, rindo muito e tomando um chopinho com o carrinho ao lado vazio. E o Meu lindo bebê? Estava nos braços de uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida! Corri até ela e tomei-o dos seus braços com ar seco e bravo. Ela sorriu sem graça, “Ah, você é a mãe?” e pediu mil desculpas, justificando que tinha achado-o tão fofo e que era tão inusitado um bebê no bar àquela hora, que não resistiu e pediu “aos rapazes” da mesa para pegá-lo um pouquinho no colo! Bem, eu estava tão preocupada com tudo que nem tive tempo de sentir remorsos – sentimento que até caberia pelo meu jeito rude – afinal, dada a explicação, era apenas uma outra mulher com seu instinto maternal de plantão! Dei uma grande bronca no Luis (é claro!) e saímos logo de volta para casa. Senti, de alguma forma, que estava acabada a minha festa das saídas noturnas para encontrar-me com Proust, em busca do tempo perdido. Depois disto, mesmo depois da bronca, não me sentiria mais autorizada a sair novamente e deixar meus dois homens sozinhos abandonados ao destino! Pensando bem, será que a professora tinha razão na sua indagação sobre a minha volta, afinal? De qualquer forma, que falta não faz uma mulher para colocar ordem numa casa, não é mesmo?! Rsrsrs…

Bem, o leitor poderá estranhar, mas terei que fazer aqui uma parada, justamente após o fechamento deste parêntese. O texto ficou longo demais. Tendo em vista que o meu leitor em potencial também não tem Todo o tempo do mundo para si próprio e também temendo não passar pelo “departamento de censura” que revisa alguns textos para mim, achei melhor terminar do mesmo jeito que a Sherazade, reservando para o leitor a continuação apenas para o próximo capítulo! 🙂

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