O Tempo Reencontrado ou o Tempo Redescoberto?

Enfim, voltando ao livro, uma das coisas sobre as quais lembrei-me também, naquela tarde, talvez pela proximidade da minha viagem, foi a respeito de uma discussão que aconteceu nas aulas sobre a tradução do título do último volume: Le Temps Retrouvé , no original em francês. Acredito que a discussão tenha acontecido durante o curso, mas como a memória é falível a erros, pode até ser que eu tenha ouvido esta discussão em outro lugar. Se for o caso, peço desculpas ao leitor… A questão, no entanto, é que parece ter havido algum embate, ou alguma mudança com o tempo, sobre a escolha do termo para a tradução de Retrouvé. Para alguns autores, o termo escolhido teria sido o termo mais literal “reencontrado”, resultando em: “O Tempo Reencontrado”. No entanto, a edição adotada no curso, traduzida pela Lúcia Miguel Pereira, trazia a tradução “O Tempo Redescoberto”, mais apropriado ao sentido da obra como um todo. Ora, sabemos que a tradução de um texto literário não é nada trivial. É algo que habita, sem sombra de dúvidas, o território da interpretação e, portanto, da criação. Entender a língua de origem e a língua da tradução e fazer a ponte, tendo em vista o sentido da obra é algo extremamente complexo e desafiador. No final do post, transponho parte de uma nota da Olgária Matos, trazida no final da edição do livro, justamente sobre o tema “Traduzir Proust”. Ela cita Walter Benjamin nesta nota, inclusive.

E por que o “Tempo Redescoberto” faria mais sentido no conjunto da obra do que o “Tempo Reencontrado”? De alguma forma, pelo mesmo mecanismo que pede que a tradução seja feita como uma obra de criação. Ou seja, a própria memória, como vamos entendendo ao longo da narrativa de Proust, é por si mesma uma obra de interpretação e de criação de significados sobre os acontecimentos do passado. Assim, o fato relembrado, jamais estará disponível para ser reencontrado tal qual ele aconteceu, no seu original. A verbo “descorbir”, por sua vez, traz em seu núcleo a ideia do novo e atual. E mesmo o “redescobrimento”,  carrega esta ideia de atualização daquilo que já é conhecido.

Embora esta ideia estivesse apenas apresentada nas entrelinhas de Proust, alguns anos mais tarde descorbi outro livro que a enunciou claramente para mim. Este, eu descobri ao visitar uma livraria com meus filhos e confesso que o comprei  unicamente pelo fato do título carregar junto o nome deste escritor que tanto me encantou: o livro chamava-se Proust foi um Neurocientista: Como a arte antecipa a ciência. O autor, um neurocientista ele próprio, conta no Prefácio que carregava sempre para o laboratório, para ler nos momentos de espera entre suas experiências sobre a memória, o livro Em Busca do tempo Perdido. A escolha do livro, segundo ele,  não era proposital ou ligada à pesquisa (embora saibamos que um interesse comum atrai diferentes abordagens para um mesmo leitor). Mas, de certa forma, ele descreve que foi meramente por esta coincidência que percebeu que muitas das ideias de Proust, de mais de um século antes, eram extremamente atuais e só agora estavam sendo “provadas” ou “aceitas” pela própria ciência. Por estas conclusões, o autor decidiu começar uma investigação sobre o assunto e acabou por escrever este livro tão interessante que fala não apenas de Proust, mas de outros tantos artistas de diversas áreas, não apenas da literatura (como Cèzanne, Stravinsky, Gertrude Stein, Virginia Woolf… ) para defender a ideia de que muitos dos conceitos atuais, considerados hoje lugar-comum pela ciência, surgiram ou foram ”anunciados”/“enunciados” ao mundo em primeiro lugar por artistas, de forma intuitiva, sendo apenas em um segundo momento “comprovados” pela ciência.

Essa ideia é fantástica e eu, de certa forma,  já tinha sido apresentada a ela em um curso de história da Arte da Renascença, quando um professor chamou atenção para o fato de que a ideia do infinito que possibilitou o desenvolvimento do cálculo diferencial, tão importante para o desenvolvimento da física, química e toda ciência moderna, de alguma forma teria surgido, ou sido resgatado naquele momento histórico, primeiramente como uma ideia conceitual representada pela ideia do ponto de fuga da perspectiva utilizada ou “criada” pela pintura renascentista (o ponto de fuga é o infinito para onde convergem os traços da perspectiva ; diga-se de passagem, no quadro da Anunciação do meu primeiro Post, bem como em outros da época, o ponto de fuga sempre tendia para o ponto onde se situava a imagem do divino, ou de Deus). Para uma Engenheira de Computação que passou parte dos seus primeiros anos de graduação estudando cálculo diferencial e que vive em tempos onde a Ciência e a Tecnologia parecem ser o carro-chefe da sociedade, esta ideia era realmente demais: apaixonante!

Na verdade, a ideia do livro vem ao encontro de um conceito atualmente difundido de que a própria ciência não é apenas “Luz e Racionalidade” e um plano do conhecimento e atividade humana independente dos demais, mas sim, produto também da própria criação, tendo em seu redor muitos outros campos intuitivos que permitem os caminhos até a construção de importante leis e conceitos que hoje tomamos como “universais” e “absolutos”.

No que se refere à memória, por sua vez, uma das principais questões que Proust deixaria transparecer no livro e que chamou a atenção de Lehrer, como eu já disse anteriormente, é a de que a memória vai se transformando com o tempo. Muitos fatos são relembrados da infância de forma diferente a cada vez. Por exemplo, a verruga de Albertine, a amante de Proust, num momento era no queixo, depois na bochecha e em outro, perto dos lábios. Segundo o autor, nos dias de hoje, é exatamente assim que a neurociência enxerga a memória. Ou seja, a ideia de que a memória era uma caixa preta secreta guardada em algum cantinho escuro da mente foi por terra. Atualmente, entende-se que ela é viva e se reconstrói a cada momento segundo uma rede de relações atuais. E o mais curioso: depois que uma memória durante muito tempo esquecida vem à tona, quanto mais vezes ela é relembrada dali para diante, mais distante ela vai ficando da sua versão original, pois maior o conjunto de interpretações e novas informações vão se somando a ela. Ou seja, uma vez lembrada, a lembrança nunca mais será tão acurada (se é que em algum momento ela o foi)…

Para quem assistiu ao lindo filme Cópia Conforme de 2010, prêmio de melhor atriz em Cannes para a atriz Juliette Binoche, com direção de Abbas Kiarostami, um tema parecido entra em discussão. Desta vez, sendo o objeto não mais apenas a memória – embora no final do filme este tema apareça também, reelaborado de uma forma inusitada e incrível: a memória no limite da criação – , mas sim a Cópia da obra de arte e a sua relação com a obra original. São muitos os questionamentos: qual o valor subjetivo que se estabelece entre o expectador e a obra original versus o expectador e a obra-cópia, se muitas vezes nem sequer temos o conhecimento de ser a obra testemunhada uma cópia? Quais os limites entre a citação de um obra de arte dentro de outra e a própria cópia desta obra?Assim como na discussão da tradução de uma obra literária, sabemos que algumas cópias só são identificadas como cópias anos mais tarde, quando alguns maneirismos e moda de uma época deixam de ser transparentes para o expectador, pois já não são mais corriqueiros. Os desdobramentos desta discussão no filme são muito interessantes e transcendem a discussão da obra de arte simplesmente, sendo extrapolados para muitas outras relações do sujeito com seu objeto e as diversas relações que se estabelecem entre eles no eixo “originalXcópia”.

Esta discussão, de qualquer forma, é uma discussão extremamente atual. Proust continua atual, assim como é atual a ideia de que a tradução, a leitura e a relação do sujeito com o objeto (seja do leitor com o livro, do expectador com quadro ou escultura, do cientista com suas pesquisas ou mesmo da pessoa com suas memórias) não são relações estáticas, mas relações em constante transformação, já que o sujeito é sempre um ser em transformação por uma rede de ideias que se movimentam (valores que mudam, novas experiências vividas, novas informações apreendidas etc.) Ora, então, nada mais atual do que a tradução do título do último volume da grande obra de Proust para o português: não há dúvidas de que o tempo e os acontecimentos passados jamais serão reencontrados tal qual foram deixados. Isto não impede, no entanto, que nos prestemos à maravilhosa tarefa de redescobri-los, tirando-os das brumas da nossa consciência, reinventando-os e atualizando-os para o contexto atual de nossas vidas.

Foi com estas divagações que, prestes a iniciar a minha própria Viagem em Busca do Tempo Perdido, passei o final de uma tarde de um simples dia de semana, após ajudar meu filho com sua simples lição de casa. Simples lição de casa? Não, tenho certeza de que a sua professora, Lívia- só estou contando seu nome aqui pois ela me autorizou para tanto!-,  não planejou esta lição para ser uma simples lição. Já devia imaginar que poderia ser um porta de entrada para boas lembranças na casa de cada família de seus alunos. Aliás, acho que posso contar uma das suas memórias de infância, que ela me revelou certa vez: que sua mãe constumava ler para ela histórias infantis da Clarice Lispector e por isto ela era um fã da Clarice, como eu! Como resistir a contar um segredo tão especial como este a vocês? Mas, concluindo: definitivamente não foi uma simples lição; esta experiência foi, na verdade, um presente. Um presente que ela nos deu naquele simples dia!

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Trecho da Nota de Olgária Chain Féres Matos: Traduzir Proust (Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto: p. 293-295)

“Todas as grandes obras da escrita(…) contêm nas entrelinhas sua tradução virtual.” Com estas palavras, Benjamin toca no essencial da conversão de um língua em outra. No ensaio A tarefa do tradutor, ele mostra a diferença entre a elaboração do texto original e o ato de traduzir: enquanto a palavra original sobrevive em sua própria língua, o mesmo não ocorre na tradução. Razão suficiente para que esta não seja simples duplicação ou repetição. A tradução sofre a ação do tempo. O que é atual em um determinado momento pode, em seguida, parecer démodé, o que era moeda corrente pode tomar uma feição arcaica, a tradução literal pode ser nons-sens.

A tradução deve abarcar as mutações da língua. Mais: necessita preservar o que faz o parentesco entre as línguas, tornando as traduções possíveis, bem como o que as faz estrangeiras. Toda tradução é uma maneira provisória de procurar um metron de seu estranhamento: “ Assim como os estilhaços de uma ânfora – para reconstruir o todo – devem ser contíguos em todos os pormenores, mas não idênticos uns aos outros, também a tradução deve procurar, antes de mais nada, não se assemelhar ao sentido original, mas, em um movimento de amor até o mínimo detalhe, fazer passar em sua própria língua o modo de visar do original”. Isto quer dizer que a tradução não procura preferencialmente comunicar pela enunciação – com o que ela seria “exata” mas perderia o essencial: “Aquilo que um poema contém para além da comunicação não é universalmente tido como o inalcançável”, escreve Benjamin, “o misterioso, o ‘poético’? Aquilo que o tradutor só pode transmitir fazendo ele mesmo obra de Poeta?” O poeta-tradutor não pretende a objetividade. Encontra uma harmonia entre as línguas, na maneira pela qual roça o sentido-sentido que só pode ser tocado ‘pela brisa da língua como o vento tangia a harpa eólia”.

Bibliografia

PROUST, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto. Tradução: Lúcia Miguel Pereira. 13a Edição. São Paulo: Ed. Globo, 1998.

LEHRER, Jonah. Proust foi um Neurocientista: Como a arte antecipa a ciência. 1a Eição. Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2010.

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