As Fotos – Em Busca do Tempo Perdido

“Time it was

And what a time it was, it was

A time of innocence

A time of confidences

Long ago it must be

I have a photograph

Preserve your memories

They’re all that’s left you”

(BookEnds – Música de  Paul Simon – 1968)

Como você, leitor, com certeza já deve ter percebido, não existe muita ordem nos meus posts. Comecei a relatar uma viagem antiga (Istambul ao Cairo) – já que a sua comemoração de 10 anos era uma das motivações do blog (por tudo que ela significou)-, então interrompi este relato pulando de volta para dentro da janela para tratar de outros assuntos urgentes, voltando em seguida para o jardim, mas não necessariamente ao mesmo canteiro em que eu estava, seguindo para os relatos de outras viagens ou sonhos. Algumas histórias vão ficando temporariamente inacabadas… Pretendo voltar a elas, mas isto é o máximo que posso prometer (!): meu desejo de voltar a elas em algum momento oportuno. Espero que o leitor entenda que o blog segue estes movimentos como um reflexo da vida e dos seus próprios movimentos naturais que se seguem mesmo desordenadamente, sobretudo para uma mãe, como eu já expliquei no primeiro texto “A inspiração do meu jardim”, que está constantemente neste movimento de ida e volta de dentro de casa para o jardim, confundindo histórias atuais com antigas, sonhos vividos (no passado e no presente) e sonhos a viver, intercalados com outras preocupações momentâneas. Além disto, este movimento é nada menos do que o movimento da memória, do nosso estado de espírito ou mesmo o movimento da navegação pela internet, onde passamos de um nó para outro segundo as interferências do momento – interferências que não são apenas desvios de rota, ou , mesmo sendo, jamais devem ser encarados como perdas, mas sim como experiências que se somam e nos levam a novos caminhos e novos significados a serem descobertos.

Apenas para situar o leitor: logo após o post “O Tempo Reencontrado ou o tempo Redescoberto?”,  escrevi os relatos propriamente ditos da viagem que fiz com o Luis e os meninos por lugares da minha infância nos Estados Unidos, em abril deste ano. No entanto, como faltavam algumas fotos a serem inseridas, ele acabou ficando no rascunho. Veio então a viagem a  NY e a vontade de escrever sobre ela. Agora, ao retornar aos relatos da viagem anterior, resolvi fazer uma mudança e começar apenas por algumas fotos. Você deve estar se perguntando: por que explicar isto se o texto mudado era apenas de um rascunho? Bem, a razão principal é explicar o motivo desta mudança: um grande desejo meu de fazer um elogio à fotografia. Pelos tantos feed-backs que recebi do post anterior,  acho que muitas pessoas se identificaram com a sensação de liberdade que eu descrevi a respeito do momento da viagem em que fiquei sem a máquina fotográfica em NY. Sim, é mágico estar sozinha, como flaneur, sem nenhum compromisso (nem mesmo o de tirar fotos!); é como se a sensibilidade fosse aguçada ao infinito para perceber o lugar, as paisagens e, sobretudo, as pessoas que passam e as histórias de vida que se insinuam nas cenas que vemos pela rua. No entanto, embora este sentimento tenha sido real, adoro ambiguidades e, repentinamente, fiquei com muita vontade (na contramão da minha crítica à tecnologia ou às mídias que nos escravizam ou nos insensibilizam para o momento e para a vida) de fazer um grande elogio à fotografia que é não só uma das mais importantes formas de arte dos dias de hoje, mas também uma forma de documentação inacreditável. Através dela, todos sabemos, quantos momentos são eternizados!

Além disto, ela é uma importante ferramente a serviço da nossa memória: quem dirá o contrário?! Existe também um fenômeno, do qual gostaria muito de falar aqui, que com certeza todas as mães irão entender, mas, sobretudo, aqueles filhos que não mais tem suas mães por perto saberão identificar. As mães são uma espécie de testemunho vivo da nossa história; são elas que se lembram das histórias mais antigas da nossa vida, mesmo das épocas mais remotas da nossa infância, aquelas das quais jamais poderíamos nos lembrar espontaneamente, e de tantas outras histórias, fatos, nomes de lugares ou datas importantes da nossa trajetória do início até a atualidade. Então, quando ela não está mais por perto e queremos reconstruir esta história para passar adiante para as novas gerações, ou simplesmente para revisitá-la, temos que trabalhar numa espécie de quebra-cabeça, juntando partes através de relatos de pessoas amigas, de outros parentes e, é claro, das fotos que dizem tanto dos momentos que ficaram perdidos ao vento.

Então, este post é não só um relato sobre a memória e sua atualização no tempo (através do seu redescobrimento), como também, como eu já disse, um elogio ao poder da fotografia. Escolhi para mostrar aqui algumas fotos que puderam contrapor o passado ao presente nesta trajetória da nossa viagem por lugares da minha infância. Ao recuperá-las, algumas curiosidades… Uma delas, tem um sabor especial em tempos pós-Olimpíadas.

Esta curiosidade diz repseito à Esmeralda de Jesus, uma atleta brasileira (de salto triplo e corridas de sprint) que morava em Boulder, Colorado, na mesma época que minha família, e que tornou-se conhecida dos meus pais e outros brasileiros. Todas as pessoas que já moraram fora do país sabem a importância que existe em promover encontros de grupos de pessoas da mesma nacionalidade que estejam fora por um período ou definitivamente. E, é claro, uma das melhores coisas é juntar este grupo para uma comida típica do país de origem. Algumas das fotos que aparecem nesta galeria – e que se contrapõe às fotos atuais do jantar na casa de amigos em comum em Boulder, a Renee e o Roger- são fotos de uma feijoada na casa da Esmeralda em 1978/1979. Eu nunca mais tive contato com ela desde aquela época, mas sabia que ela estava morando em Boulder naquela fase para treinar, após ter participado das Olimpíadas de Montreal (1976). (Devido à altitude e outras características ambientais, a cidade de Boulder é considerada uma das melhores cidades dos Estados Unidos para treino de corrida e preparo de condicionamento físico. Numa das trilhas que fizemos em abril, em pleno domingo de um dia com previsão de neve, encontramos várias pessoas fazendo a mesma trilha que nós, montanha acima, correndo, com cara de estarem treinando. Achamos realmente inacreditável!) Mas, voltando à Esmeralda, depois de alguns anos que eu voltei ao Brasil,  soube que ela participou das Olimpíadas de Los Angeles (1984), mas que não venceu nenhuma medalha, então realmente me desconectei desta história de vida.

Ao recuperar as fotos antes da viagem para levar ao Roger e Renee (que aparecem também na foto da feijoada), resolvi procurar na internet para ver qual tinha sido o seu paradeiro. E que feliz notícia saber que ela conquistou tantos recordes e medalhas para ao Brasil e que foi uma atleta muito importante para a história do nosso atletismo! É muito bom saber que pessoas que cruzaram as nossas vidas alguma dia conseguiram seguir as suas trajetórias sonhadas, mesmo que não tenham sido caminhos apenas de vitórias (qual o caminho de vida não tem suas muitas derrotas, afinal, que nos fazem mais fortes inclusive?).Vendo as Olimpíadas de 2012 em Londres, sabems que embora todos os atletas que chegaram lá se esforçaram muito durante anos, com grandes conquistas no meio tempo, apenas alguns receberam medalhas; às vezes, por pequenas diferenças de desempenho ou ares de sorte ou azar do momento, às vezes porque realmente são melhores ou estavam mais bem preparados. O comentário do judoca Thiago Camilo para a televisão, ao final da competição em que ele perdeu a chance de disputar a medalha de ouro – para a qual era um dos favoritos – nos diz tudo (infelizmente não consegui recuperar na íntegra as palavras que ele disse em entrevista, mas foi uma fala bastante humana e humilde frente aos outros esportistas). O que importa, afinal, assim como na vida, é o total da trajetória, as tentativas e erros ao lado das grandes vitórias. Recentemente, ao rever uma ótima palestra do ecologist Sérgio Bresserman Vianna da CPFL Cultura, ele fez uma brincadeira no início dizendo que todo o Curriculum deveria trazer também as derrotas daquela pessoa – além dos seus acertos e conquistas -: sábia visão!

Porém, o que achei mais curioso ao rever as fotos e consultar a hisoria “real” ou “original” na internet, foi descobrir (redescobrir ou relembrar!) justamente que no ano daquelas fotos, 1979, enquanto ela tinha uma criança ainda em tamanho de usar cadeira alta (vejam a foto abaixo), ela quebrou um importante recorde de 100 mts rasos (a modalidade estrela do atletismo) nos Estados Unidos. E dois anos depois, mais uma vez. Incrível, não é? Como poderia treinar tanto e ainda cuidar do filho tão pequeno num país estrangeiro?! Como mãe, fiquei intrigada com isto. E, claro, achei absolutamente admirável!

Outra coisa engraçada é sobre a última fotografia da Galeria em que eu apareço com orelhas “sutis” de Minnie. Se algum leitor achar um pouco engraçado uma mulher de mais de 40 anos usando uma tiara de Minnie em plena Disney, não se preocupe, eu não o culpo! Rsrsrs. Porém, como resistir a me transportar no tempo através de uma fantasia? Ainda mais posando na foto ao lado da Cala, uma das mães mais incríveis dos desenhos do Walt Disney – a gorila que adotou Tarzan e, simbolicamente, todos os órfãos do mundo nesta deliciosa história infantil! Além disto, vou confessar: eu não era a única quarentona com tiara de Minnie por lá! 🙂

A música que introduz este post é de um álbum clássico dos músicos Paul Simon e Garfunkel que marcou uma época, ou uma geração (a dos meus pais). Meus pais tinham este álbum e com certeza eu já a ouvi diversas vezes durante a minha infância. Eu nunca tinha reparado na letra até recentemente, quando estava justamente escrevendo este post e a ouvi no carro um dia mostrando para os meninos este CD como “As músicas do tempo em que eu nasci”. A letra, assim como a melodia, é lindíssima, embora fortemente nostálgica.

Porém, assim que terminei de escrever o post e colocar as fotos, por algum motivo, uma outra música me veio à cabeça, do nada: “Futuros Amantes”, do Chico Buarque. Embora a letra tenha me chamado a atenção quando a escutei pela primeira vez como uma música que falava de “amantes” , acho que ela veio à minha mente pois o assunto do amor que se preserva para ser vivido em outros tempos é verdadeiro também para pais, avós ou qualquer geração predecessora. Esta música também é lindíssima e traz (letra e melodia) uma sensação mais alegre e intensa de continuidade, algo que eu gosto bastante e que acho que combina bem com as fotos abaixo. O amor aos filhos cruza gerações e continua se manifestando muitos anos depois: os vestígios estão lá (de fotos, de histórias, de genes herdados), basta sermos mergulhadores e poderemos redescobri-los!

Se quiserem ver a galeria abaixo com trilha sonora, podem escolher :

Bookends – uma música norte-americana do final dos anos 60.

Ou: Futuros Amantes – uma música brasileira de 1993 (meio do caminho para mim!).

Divirtam-se!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Para quem for da família ou quiser acompanhar as memórias da visita à cidade de Boulder: o post seguinte (já publicado) é:”A Viagem: Em Busca do Tempo Perdido” – uma espécie de “diário de viagem.”

Anúncios

2 comentários em “As Fotos – Em Busca do Tempo Perdido

  1. Anne disse:

    Elisa,
    Simplesmente lindo, lindo, lindo 🙂
    Bom, eu adoro fotos e adorei as tuas, demais a comparação!. E adoro também está música do Simon & Garfunken!
    Beijos,
    Anne

    • elisas disse:

      Anne, finalmente estou conseguindo aprovar o seu comentário e respondê-lo. Tinha esquecido a senha de admin do blog! Hahaha! Sinal que faz tempo que não escrevo! Bem, imagino que esta música também faça parte da juventude dos seus pais e da época do seu nascimento. BTW, adoro as fotos que você tira dos seus meninos! E sei que você também compartilha comigo esta coisa de reviver a própria história através deles, ou com eles, aproveitando velhas e boas lembranças , mas tecendo novos caminhos. Acho que é o “ciclo da vida”, como diria o Rei Leão! Grande beijo! Elisa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s