O Milagre da Fragilidade – Um Elogio à Generosidade Humana

Mais um post começando com uma citação…: desta vez, de um pequeno relato que eu adoro! Voltei a ele recentemente, ao receber de volta o livro do qual faz parte, que estava emprestado a uma amiga querida em busca de informações sobre alimentos fortalecedores do sistema imunológico. Porém, trata-se de um assunto eterno, que cabe bem em qualquer hora, sobretudo – mas não só – nos dias próximos ao Natal.

Sobre o livro – Anticâncer -: hoje em dia, todo mundo já passou pela experiência do Câncer (seja por familiares ou por experiência própria) – doença que há apenas algumas décadas atrás parecia-se mais com Voldemort (o personagem do filme Harry Potter chamado de “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado“) de tanto pavor que o seu nome causava entre as pessoas. Felizmente, a medicina deu seus passos, além das pessoas terem se acostumado à ideia de que a vida é frágil em sua essência, mas que nem por isto não pode ser defendida com unhas e dentes e todas as forças do ser humano. A visão de que temos mais ao alcance de nós também aumentou: a alimentação e hábitos de estilo de vida que pareciam acessórios tornaram-se  importantes e cruciais não só para a prevenção, como também para o tratamento de muitas doenças. Este livro vale a pena por mostrar um pouco de todas estas questões, mas, acima de tudo, por ser um livro que fala da experiência humana de superação. O trecho que estou citando fala de um momento em que o autor ajuda uma senhora instantes antes dele próprio entrar para uma cirurgia de tumor no cérebro: a experiência é simples, mas seu relato é poético e o assunto é muito caro a todos nós humanos.

“Eu me lembro de um desses acontecimentos insignificantes que nos mergulham sem aviso prévio na experiência da fragilidade da vida e do milagre da conexão com outros mortais, nossos semelhantes. Foi um breve encontro em um estacionamento, na véspera da minha primeira operação, um episódio minúsculo que um olhar exterior qualificaria de paliativo, mas que permanece marcado com o selo de uma revelação. Eu tinha chegado a Nova York de carro com Ana e parado no estacionamento do hospital. Estava ali tomando ar durante meus últimos minutos de liberdade anteriores à minha admissão, aos testes, à sala de cirurgia, à operação…Avistei uma senhora de idade saindo visivelmente de uma internação hospitalar, sozinha, sem ajuda. Carregando uma bolsa, ela se deslocava com muletas e não conseguia subir no carro. Olhei para ela, surpreso que a tivessem deixado ir embora naquele estado. Ela reparou em mim, e eu vi no seu olhar que ela não esperava nada de mim. Nada. Estamos em Nova York, é cada um por si. Então eu me senti empurrado para ela, por conta de um impulso de uma força surpreendente, um impulso originário da minha condição de doente. Não era compaixão, era uma fraternidade quase visceral: eu me sentia infinitamente próximo, da mesma matéria que aquela mulher que precisava de ajuda e não pedia. Botei sua bolsa na mala, sentei no volante para tirar o carro da vaga, segurei-a enquanto ela se instalava no assento, fechei a porta do carro sorrindo para ela. Durante aqueles poucos minutos, ela não estivera sozinha. Eu estava feliz por poder lhe prestar aquela minúscula ajuda. Na verdade, era ela que me prestava ajuda ao precisar de mim justamente naquele momento, permitindo que eu sentisse minha comunidade de condição humana. Foi o que ela me ofereceu, e eu lhe dei algo em troca. Revejo ainda seus olhos, nos quais eu despertei uma espécie de confiança nos seres e nas coisas, a ideia de que a vida é maravilhosa por ter posto no seu caminho aquele apoio inesperado. Nós mal nos falamos, mas eu estou persuadido de que ela, assim como eu, teve a certeza de uma harmonia particular.  Este encontro me aqueceu o coração. Nós, os seres frágeis, podíamos nos sustentar uns aos outros, e nos sorrir. Entrei em cirurgia em paz.” (Biblio.: Servan-Schreiber, David.  Anticâncer – Previnir e vencer usando nossas defesas naturais. Rio de Janeiro , RJ: Editora OBJETIVA, 2008; 39-40)

Acabo de lembrar-me também de um trecho que acho muito curioso do personagem Valmont no livro Les Liaisons Dangereuses de Chaderlos de Laclos (“As Ligações Perigosas”, que muitos devem conhecer pela sua versão mais conhecida em  filme, onde este personagem é interpretado por  John Malkovich). A cena refere-se a quando Valmont vai a uma vilarejo de pessoas humildes para realizar um ato de caridade aos mais necessitados. Seu objetivo principal é puramente mundano: impressionar a bela, inocente e devota Madame de Tourvel (interpretada pela  atriz Michelle Pfeiffer neste mesmo filme) que ele desejava arduamente conquistar (não só por desejo, mas por uma aposta realizada com Marquise de Merteuil, importante e poderosa dama da mesma corte francesa). Após encenar o teatro de bom caridoso com os pobres locais do vilarejo, ele relata a sensação extraordinária de prazer que sentiu na realização do “ato de ajuda ao próximo”, algo que jamais imaginaria possível, dado seu carácter assumidamente egoísta e auto-centrado. Diz, ironicamente, que se soubesse desta sensação antes, teria começado a praticar a caridade bem  mais cedo em sua vida. A cena é engraçada, mas delata algo tão íntimo da condição humana! A carta em que aparece esta passagem do livro é sensacional (vale dizer que o livro, uma pérola de 1782,  é todo escrito em forma de cartas entre os seus personagens).  No caso de Valmont, o prazer do ato é imediato e parece vir diretamente do sentimento de gratidão retribuído a ele com diversos agradecimentos fervorosos da família ajudada. Já o médico David  (do texto acima), fala do sentimento de uma forma mais profunda: de uma forma de conexão humana com seus semelhantes. Embora é possível que Valmont também estivesse aprendendo a sentir esta conexão, já que o livro é um clássico pois fala justamente de uma trajetória de transformação (enquanto crítica de uma nobreza mundana e fútil do período pré-revolução francesa que vive num vazio de valores humanos). E hoje em dia,em que situação vivemos? A indiferença das ruas de NY (que poderia ser outra cidade grande qualquer do mundo) pode ser real, assim como a indiferença dos muitos médicos “mercantilistas” frente ao sofrimento dos seus pacientes, mas gosto de acreditar que também é real a existência de muitas pessoas que estão prontas a ajudar seus semelhantes, não apenas em tragédias de tsunamis ou furacões (tão badaladas pela mídia), como também em situações bem mais singelas como aquela que este médico relatou em seu livro.

O sentimento do qual estes dois personagens falam, todos nós já experienciamos, de alguma forma. São momentos quase que de epifania, parecidos também com o momento descrito no conto da “Galinha” de Clarice Lispector, quando uma família, ao correr atrás de sua galinha para matá-la (e servi-la no jantar,obviamente!), tem um momento de luz e todos percebem sua existência e se conectam a ela de forma a desistirem to ato de crueldade (neste mesmo conto, se não me falha a memória, “depois que a banda passa”, tudo retorna ao seu lugar e ela acaba mesmo na mesa da família, mas isto não diminui a descrição do momento anterior, nem a grandeza de Clarice Lispector, com certeza uma das escritoras mais sensíveis a estes lampejos da existência humana). Estes momentos, por sinal, trazem sentimentos não tão distantes dos sentimentos do artista em seu ateliê (ou Matisse na sua relação com o seu Jardim-Ateliê e sua arte – como escrevi no meu primeiro post do blog – “A inspiração do Jardim”).

Talvez a questão seja ampliar este sentimento, que todos já conheceram algum dia (uns mais , outros menos…). Não no tamanho da generosidade, mas na sua constância. Não estou falando de mover montanhas, mas de ajudar alguém que passa na rua, de dar a passagem ao carro que quer entrar na avenida, dar um sorriso e cumprimentar um estranho atrás de você na fila ou um varredor na rua, respeitar os companheiros do dia-a-dia, os que estão acima, mas também, e principalmente, os que estão abaixo de você na hierarquia de trabalho, ou enxergar o sofrimento de quem está ao lado e fazer um pequeno gesto para amenizá-lo (algo tão simples como gastar alguns minutos para ligar para um amigo querido que sabemos que está passando por tempos ruins, algo que muitas vezes deixamos de fazer por preguiça ou medo de não saber o que dizer). Uma coisa é certa, uma vez que conseguirmos entender isto, é algo do qual não poderemos mais nos desconectar. E não é pela gratidão que recebemos, mas, como diz o autor do texto citado, simplesmente pelo prazer do compartilhamento da sensação de que somos iguais no mundo – dentro de nossas diferenças, é claro! – na nossa condição de fragilidade (mais cedo ou mais tarde experienciada!).

Um dia destes à noite, esperando os homens da casa voltarem do jogo da final do São Paulo no Morumbi, assisti justamente a um pedaço de um concerto em NY em prol dos afetados pelo furacão Sandy. Cada apresentador de uma banda dava o seu recado, falava de algumas pessoas que fizeram a diferença na hora da dificuldade ou nos dias que se seguiram e faziam a sua propaganda para que as pessoas ajudassem na causa com doações. Um deles disse uma coisa que achei muito engraçada, pois eu já tinha começado a escrever este post justamente no dia anterior. O comentário dele foi: “Send your help, and beleive it: this will make you feel high!” “Feel high” é uma gíria para a sensação de sentir-se “embriagado”, ou naquele estado de quem experimentou alguma bebida ou droga. Lembrei-me na hora de uma música do cantor John Denver chamada “Rocky mountain High” (escrita quando ele se mudou para a cidade de Aspen no Colorado) , que trouxe uma grande controvérsia justamente pelo uso deste termo para designar a vista das montanhas rochosas. Ele teria se defendido dizendo que não pretendeu fazer nenhuma referência implícita às drogas, mas simplesmente a um estado de graça, ou de proximidade com Deus, que sentimos ao presenciar a beleza das montanhas rochosas. Anos mais tarde, a música se tornaria uma das músicas oficiais do estado do Colorado. No final, talvez todos queiram sentir a mesma coisa: o drogado da esquina da nossa rua, a senhora beata da outra esquina, que ajuda os mais necessitados, o viajante que busca paisagens enebriantes da natureza ou o pintor na sua relação com a sua arte! Todos querem sentirem-se “high” de alguma maneira (embora alguma formas com certeza sejam mais auto-destrutivas que outras…).

Então é isto aí! Para quem já sabe o que é este sentimento de comunhão com o próximo, continue experimentando-o. Não só em tempo de véspera de Natal, onde ele tanto é lembrado, mas ao longo de todo o ano, em cada dia que passa, quando você se sentir forte o bastante para dar esta chance à vida. Para quem ainda não chegou lá, e ainda associa a ajuda a algum tipo de obrigação moral ou perda de tempo: aproveite o fim de ano para começar. Afinal, foi justamente nesta mesma época , ao ouvir os moradores da Quem-lândia cantarem uma música de Natal, mesmo quando o Natal tinha sido totalmente roubado por ele (presentes, comidas e enfeites), que o hilariante Grinch viu seu coração aumentar de tamanho em 3 vezes e ele finalmente se tornou uma pessoa melhor (“Maybe Christmas doesn’t come from a store, maybe Chritmas – perhaps – needs a little bit more”). Enfim, meu caro leitor: nunca é tarde demais para descobrir novos prazeres na vida!

E para todos vocês: um Feliz Natal!

Referências

1. A cena do filme Grinch em que o coração dele aumenta 3 vezes de tamanho

http://www.youtube.com/watch?v=p8J-YmVs1j0&list=PLBDE7C75872A165D1

2. A cena seguinte onde ele salva a vida da menininha que fez com que ele voltasse a acreditar no Natal ou na generosidade (o prazer do rosto dele ao sentir-se “high” por salvá-la é demais!! rsrsrs).

3. Last, but no least: A música do John Denver (Mais anos 70 impossível! Talvez um pouco brega para os dias de hoje, mas, ainda assim, importante na minha infância – tanto estas montanhas quanto a música..)

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Um comentário em “O Milagre da Fragilidade – Um Elogio à Generosidade Humana

  1. Vivian disse:

    Inspirador!
    Vou ler o conto da Galinha, nao conhecia 🙂
    Bjos
    Vi

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