Sobre o blog (A inspiração do Jardim)

Uma Janela para o Jardim – A inspiração

Quando pensei em escrever um blog, a pedidos de pessoas queridas, mas também por vontade de expressar algumas ideias, a primeira lembrança que tive, ao começar a pensar no nome, foi a respeito de um texto que li há muitos anos atrás, certa ocasião na biblioteca do Instituto de Artes da Unicamp. Enquanto esperava por um xerox, sentei-me para folhear um livro deixado em cima da mesa por algum leitor anterior sobre o pintor Henri Matisse. Este período da pintura francesa com certeza fascina a muitas pessoas, não apenas por ser um período de uma arte extremamente luminosa, mas, também, pelo imaginário que flutua sobre nós a respeito dos pintores que viveram em Paris durante o início do século passado e depois seguiram para a Riviera francesa: como não pensar neles de maneira intrínseca ao mar tão azul do Mediterrâneo?

Enquanto lia as primeiras páginas do livro, fiquei fascinada pela interpretação apaixonante de um dos quadros chamado La Conversation (A Conversação, quadro que ilustra a capa), usado no livro para introduzir questões de grande relevância sobre a arte do pintor. Assim, chegou a hora marcada para pegar o xerox e continuei ali, totalmente magnetizada pela leitura. E acabei, então, resolvendo tirar xerox deste texto também, antes de ir embora para casa.

Henri Matisse, La Conversation, 1911. Museu Ermitage, São Petersburgo.

La Conversation, eis o tema do quadro: um homem de pijama listrado de frente para a sua esposa, também vestida de maneira intimista, dentro da sala de sua casa. No meio dos dois, uma grande janela aberta para um jardim exuberante de tulipas, ao fundo do qual se vê uma porta. Na interpretação do autor, Pierre Schneider, justificada cuidadosamente com várias citações do próprio Matisse e outras inúmeras referências, o casal de pijama seria o próprio Matisse e sua esposa e a janela, a janela da casa em que eles viviam na época em que fora pintado o quadro. A janela dava justamente para um lindo jardim atrás do qual ficava o ateliê do pintor. O tema, por si só, não tem nada de espetacular. Porém, a maneira como o quadro é apresentado pelo pintor e, sob o olhar da análise feita pelo historiador, me senti convida a pensar sobre questões extremamente interessantes a respeito do antagonismo representado pelo interior da casa versus o mundo exterior a ela.

Tentarei traduzir um parágrafo do texto, já pedindo desculpas de antemão por meus possíveis erros.

“O interior perfeitamente normal” e o “senhor perfeitamente normal” representam A Conversação. Mas o quadro proclama, também, uma oposição violenta… O interior está imerso na penumbra; o exterior, jogado à luz ofuscante. Aqui, dominam os tons frios, azul e preto, lá, os tons quentes, vermelho e verde. Dentro, o humano; fora, o vegetal. No primeiro plano, a realidade burguesa; no plano de trás, o da vegetação ardente. Separados, os dois mundos não são, no entanto, impermeáveis um ao outro. A Conversação é, na verdade, uma conversação interrompida – interrompida pela erupção da incandescência exterior que rompe a intimidade do casal, arranca os personagens da tenra convivência cara a Vuillard, os transfigura pela grande tensão daquilo que é, literalmente, uma iluminação. Ela os arrebata: lá no fundo do jardim se inscreve o ateliê. Foi lá neste ateliê que foi pintada A Conversação, lá que reina esta violência insólita, esta “força que percebo como sendo estrangeira à minha vida de homem normal” (como teria dito o próprio Matisse). (pp 19 – ver Referência do livro)

Van Eyck, Arnolfini Portrait

Van Eyck, Les Epoux Arnolfini, 1434. National Gallery, Londres.

Do ponto de vista formal, o quadro teria também, segundo o autor, influências antagônicas. O tema da intimidade (ou companheirismo) de um casal entre quatro paredes, por um lado, já teria sido utilizado por outros pintores influenciados pelo tom da burguesia de suas épocas, embora o tema do amor e da paixão tenha historicamente sido infinitamente mais representado (por ser mais pitoresco, entre outros motivos). Com certeza, o quadro de Matisse teria sido influenciado pelo quadro de Van Eyk Les Epoux Arnolfini, que trata também de um casal de marido e mulher de mãos dadas dentro da sala de sua casa.

Em contrapartida, do ponto de vista do esquema estrutural dos elementos do quadro, ele estaria mais próximo à estrutura triangular do quadro A Anunciação (ou de tantas outras iluminações representadas pela pintura religiosa desde a Idade Mádia), que descrevem um momento de epifania.

Ou seja: um triângulo, cujo vértice superior representa o objeto da revelação (Deus, Cristo ou a Virgem) e que ofusca os outros vértices inferiores. No caso de A Conversação, seria a janela o objeto da revelação. E Matisse, o anjo revelador deste objeto.

Fra Angelico, L’Annonciation, 1450. Museu de São Marco, Florença.

O resultado, portanto, é uma mistura de um tema prosaico da vida, profano, a um formato ou efeito religioso. Uma das questões sobre a qual o autor se debruça é: como teria sido possível este sentimento religioso representado na obra justamente em tempos em que “Deus foi decretado morto” (em outras palavras, um tempo em que no mundo ocidental a religião perdeu suas forças e, com ela, ou ao lado dela, também a tradição). Porém, é no vazio criado pela morte da religião (simbolicamente e culturalmente falando), que se instaura a possibilidade de um sentimento religioso voltado para outros objetos. E, em certo sentido, o objeto para o qual o pintor desloca este sentimento religioso em relação à vida é a sua própria arte – representada, neste quadro, pela janela para o exterior fascinante e para o seu próprio ateliê – que abre portas para sentimentos tão intensos e exuberantes com os da fé religiosa no tema da epifania. De fato, quando perguntado se acreditava em Deus, Matisse teria respondido: “Sim, quando estou trabalhando!”.

Tanto o quadro como a sua interpretação ficaram impregnados em mim por muito tempo. De certa maneira, os assuntos que rodeavam a análise eram assuntos que sempre me interessaram igualmente, como a morte da tradição e da religião – processo que vinha lá de trás da Renascença, cujo ápice ocorreu durante o século passado – e o consequente vazio deixado para a sociedade contemporânea. Ao preço de uma espécie de “abandono”, tivemos a invenção da liberdade do sujeito e um grande espaço para a criatividade humana. E, naquele momento, foi como se este quadro resumisse séculos de história, apresentando para meus olhos o surgimento do Homem Contemporâneo tal qual eu o entendia. Um homem fruto de sua própria vontade, sempre protegido no interior de uma casa (com o conforto do estilo de vida atual), ou de uma família, enfim, de uma vida normal cotidiana, mas aberto para uma infinidade de possibilidades externas, definidas e abraçadas pelos seus desejos e sonhos, já que, de agora em diante, cada homem poderia de fato construir sua trajetória de vida conforme suas próprias aspirações, de maneira “relativamente” independente do Tempo e Espaço em que nascera. (Aqui, abro um grande parênteses para explicar que sabemos que o meio em que uma pessoa nasce jamais será neutro, trará sempre inúmeras limitações e, em contrapartida, poderá ser ele próprio gerador de sonhos, sob muitos aspectos. Daí a expressão “relativamente”). Neste contexto, o espaço do jardim, do lado de fora da janela, ficou para mim representado como o espaço da vontade humana que move cada ser único sobre a Terra. Algumas pessoas vivem mais protegidas, do lado de dentro de suas rotinas diárias, outras se lançam de cabeça a seus sonhos – quase que pulando desta janela imaginária para o exuberante jardim. Não importa, a questão é que a janela está lá, em potencial, para cada um. E penso sempre que fomos nós, das últimas gerações, que colhemos de forma mais intensa este grande fruto engendrado por sucessivas gerações chamado de liberdade de escolhas.

Muitos anos mais tarde, quando fui mãe, e tantas discussões apareceram sobre o lugar da mãe no mundo de hoje, pós revolução feminista, revisitei este quadro olhando-o sob uma nova perspectiva, extremamente coerente com a primeira, mas com desdobramentos mais particulares. A mãe contemporânea é uma mãe que carrega em si esta grande janela: de experiências vividas, de profissão e de tantas outras coisas já construídas e ainda em construção. Ao tornar-se mãe, esta janela permanece, mas em muitos momentos a vida dentro das quatro paredes exige dela grande energia e atenção. E a maneira como cada mãe se desloca, então, entre estes dois mundos, o de fora e o de dentro, não está mais definido pela sociedade como um modelo único e passa ser ela própria algo extremamente individual, inventada por cada mulher. Obviamente, não preciso dizer também que estes dois mundos estão ainda relacionados e muitas vezes até se sobrepõe, já que o próprio desejo de ser mãe e a maternidade são vividos, na maioria das vezes hoje em dia, mais do que como um fato esperado ou rotineiro da vida, como um sonho em si mesmo, ou seja, como um ato de escolha. Da mesma forma que infinitas formas de vida feminina, sem a maternidade, são igualmente aceitáveis e desejadas por muitas mulheres.

Então, pensando em tudo isto, quando surgiu a ideia de tornar a escrita um hábito, através de um blog, pensei que, de alguma maneira, escrever funciona também como uma forma de criar esta grande janela para fora de nós mesmos: um olhar para o mundo que nos cerca e que nos apaixona. Além disto, os temas que passam pelas minhas divagações são sempre temas que tentam entender estes dois mundos e sua ligação. Por vezes, falam do mundo divino dos sonhos – e, quando falo deles, penso em todos eles, não só nos sonhos atingidos, mas também nos sonhos abandonados, nos sonhos interrompidos, assim como nos sonhos roubados, ou mesmo aqueles que nem mesmo chegaram à tona da nossa consciência. Sabemos que todos eles, não apenas os primeiros, são matéria para construção da nossa trajetória, já que somos feitos daquilo que conquistamos, mas também, e sobretudo, da experiência de superação daquilo que procuramos e não conseguimos encontrar ou que perdemos. Enfim, dos desvios encontrados pelo caminho, que também trazem consigo oportunidades e outras grandes realizações. Por outras vezes, muitos dos meus temas preferidos falam também do mundo do lado de dentro, e não poderia deixar de ser assim como mãe: da família, da casa, do trabalho, dos filhos ou da própria maternidade (lembrando, novamente, que todos estes temas também se transportam para fora da janela, dependendo do olhar de cada um, do seu momento de vida e de suas motivações pessoais).

Para concluir, não posso deixar de contar a grande coincidência da foto do blog, uma foto de um lindo jardim de tulipas escolhida pelo Luís ao criar o blog para mim. Eu disse a ele o título que pretendia usar, mas não expliquei, a princípio, a minha inspiração nem falei nada sobre o quadro. Nem eu mesma me lembrava que o jardim do Matisse era ele próprio feito de tulipas. Só me recordei disto ao rever o quadro ou, mais precisamente, após reler o texto, já que a representação das flores do Matisse é um tanto quanto abstrata. Feliz coincidência! Pois, de alguma forma, é exatamente o que ele representa para mim: muito além de ser meu grande companheiro, é meu intenso jardim de motivações para a vida!

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Referências bibliográfica e trechos do texto, para quem se interessar:

 Infelizmente, na época, não anotei a bibliografia completa do livro, apenas autor, nome e editora:

SCHNEIDER, PIERRE. Matisse, Ed. Flammarion.

Mas acredito, por algumas pesquisas de edições, que foi provavelmente a edição do ano de 1992. Consultando na internet, vi que existe uma edição nova, de 2002 . Porém, seguramente não foi esta que eu consultei na época. Ao procurar pelas imagens digitalizadas dos quadros, também encontrei outro blog, de onde as tirei, que fala justamente deste livro e desta interpretação de Schneider sobre o quadro. O autor do blog, um professor de Portugal, coloca que a edição original foi de 1984, havendo outra de 1992. A que eu consultei deve ter sido, portanto, a de 1992. Aliás, fiquei feliz por saber que outra pessoa compartilhava comigo deste mesmo interesse sobre o quadro e sua interpretação!

 Há algum tempo, transcrevi alguns trechos que achava relevantes. Seguem abaixo, a título de curiosidade, antecedidos pelo número da página.

 (pag 16) Mais, la référence à Byzance éclaire autre chose que la résurgence d’une esthétique de la bidimensionnalité. L’art byzantin, du moins tel qu’il est parvenu jusqu’à nous, est un art religieux. La gravité de La Conversation, sa hauter presque effrayante – le mot “effrayant” revient souvent sous la plume des critiques de l ‘époque à propos de Matisse – sont les caractères mêmes des images sacrées. La Conversation, oú se’exprime “le sentiment pour ainsi dire religieux que se possède de la vie” comme l’écrivait Matisse dans ses Notes d’un peintre (1908), est une icône moderne.

Cette explosion du sentiment religieux paraît, à première vue, surprenante en ces annés 1890 – 1910 où, selon l’expression de Stéphane Mallarmé dans son poème L’Azur, “le Ciel est mort”, où Dieu – cést encore Mallarmé qui parle – n’est plus qu’un “vieux et méchant plumage, terrasé heureusment”, aprés quois “le vide nous evahit: le vide se met où n’est plus Dieu.”

Le valeurs longtemps incontetées, au point de n’etre plus qu’affaire de routine, disparaissent, la tradition se pétrifie ou s’écroule, dits et gestes cessent de s’inscrire sur un horizon culturel qui leur confère sens et portée. Le XIXe siècle a ressenti, de façon aiguë, cet effodrement.

(pag 18) Cette grande “image”, aux tons riches et profonds d’icône, dont la solennité comme sacrée saisit le spectateur avant qu’il n’en ait déchiffré le sujet, représent Mounsiuer et Madame dans le salon de leur coquet pavillon de banlieu. Monsieur est en pyjama rayé; Madame, en robe de chambre. Ils devisent de part et d’autre d’une fenêtre ouverte sur un beau jour d’été ponctué par les tulipes du jardin. Quoique stylisées, la chevelure et la barbe rousses de l’homme permettent de l’identifier: il s’agit , faisant face à celle que Gertrude Stein appelait “ une femme d’intérieur”, du peintre lui-même. ‘opposition entre le quoi et le comment est brutale, presque provocatrice. Pour en rencontrer de comparable, il faut remonter ao Così fan tutte de Mozart, mariage d’un livret bouffon et d’une musique angélique, dont l’antinomie est résumée par ce dialogue entre deux des protagonistes:

  • Io giuro per il cielo.
  • Ed io giuro per la terra.

Le livret de Matisse jure, luis aussi, par la terre, alors que sa musique jure par le ciel.

(pag 19) L’intérieur “ parfaitement normal”, le “gentleman parfaitement normal” sont ceux que représent La Conversation. Mais le tableu proclame, lui aussi, l’opposition violente qui déconcerta la visiteuse américaine. L’intérieur est plongé dans la pénombre; l’extérieur, livré à la lumière éblouissante. Ici dominent les tons froids, bleu et noir, là, les tons chauds rouge et vert. Dedans, l’humain; dehors, le végétal. A l’avant-plan, la réalité bourgeoise; à l’arrière-plan, le buisson ardent. Séparés, les deux mondes ne sont cependent pas imperméables l’un à l’autre. La Conversation est, à la vérité, une conversation interrompue – interrompue par l’irruption de l’incandescence extérieure qui déchire l’intimité, arrache les personnages aux tendres connivences chéres à Vuillard, les transfixe par la haute tension de ce qui est, littéralement, une illumination. Elle l’emporte: tout au fond du jardin s’inscrit l’atelier. C’est là que fut peinte La Conversation, là que règne cette violence insolite, cette “force que je perçois aujord’hui comme étant étrangère à ma vie d’homme normal.

(pag 22) Une centrale pureté la domine littéralement: la fenêtre qui s’inscrit dans le milieu de tableau. Par sa position axiale et suréminente, elle atténue le contraste brutal des personnages qu’elle sépare: lui droit, debout; elle assise, curviligne. Simplifié à l’extrême – un triangle dont le sommet supérieur, par sa prépondérance, confond les deux autres, si hétérogènes soient-ils dans une égale inferiorité – ce schéma est le plus communément utilisé depuis le haut Moyen Age pour représenter les théophanies. Dieu le Père, Christ ou Vierge, au centre et de face, dominent apôtres ou donateurs, disposés de part et d’autre, de trois quarts ou de profil, au registre inférieur. Sous-jacent au sujet actuel, l’acncien survit, transfusent dans la scène bourgeoise la solennité et la majesté du motif sacré.

C’est, selon toute vraisemblance, inconsciemment que Matisse emploie un schéma associé à un viuexthéme religieus pour exprimer un banal épisode de la vie contemporaine: la “nécessité interieure” à laquelle il obéit n’en est assurément que plus impérieuse. Pour que Matisse adoptât la composition théophanique, il fallait qu’il éprouvât le message de La Conversation lui-même, comme une révélation, une illumination.

Tel est effectivement le cas. Le message, l’objet de la révélation est la fenêtre. Depuis Alberti e Dürer, la fenêtre n’a cessé, en peinture, de servir et d’instrument de travail et de métaphore. Reprenant ce thème cher à la Renaissance, Matisse lui consacre, du début à la fin de sa carrière, nombres d’ouvres qui comptent parmi les plus impotantes. Contentons-nous de noter ce que nous apprend La Conversation, à savoir que la fenêtre est, pour Matisse, le symbole privilégié de la peinture….

“Dans La Conversation, le sens qu’il convient de donner à la fenêtre est encore accentué par ce qui s’y inscrit: le jardin et l’atelier, c’est-à-dire l’un des sujets de prédilection de sa peinture et le lieu où elle s’elabore. “Croyez-vous en Dieu?”, se demande Matisse dans Jazz, par le truchement d’un interlocuteur imaginaire, auquel il répond; “Oui, quand je travaille.” Pour lui, le travail, c’est l árt et l’art, c’estr le sacré. Représentent l’art, la fenêtre occupe tout naturellement, dans le schéma théophanique de La Conversation, la place réservée à la divinité sourveraine.

Ainsi éclairé les sens de la fenêtre, celle-ci éclaire à son tour le rapport entre l’art et la vie, tel que Matisse le conçoit – ou est contraint par sa vacation de le concevoir. En effet, le tableau ne répresente pas une conversastion, mas une conversation interrompue. Un intrus a réduit les deux interlocuteurs au silence: la fenêtre. Elle a rejeté les protagonistes de part et et d’autre. L’irruption éblouissante a transformé en figure triangulaire une scène qui devait entrer dans le moule d’une composition binaire, laquelle correspondait au thème que le peintre avait initialement entrepris de représenter: un couple de conjoints (et non d’amants). Des Etrusques à notre époque, ce sujet a été relativement peu exploité. On le comprend aisément: la tendresse est moins pittoresque que la passion; la complicité discrète qu’il impose ao peintre de représenter, également éloignée de la narration dramatique (dynamique) ou de la hiérarchisation majestueuse (statique). Il n’est guère étonnant de le voir utilisé surtout là où la bourgeoisie donne le ton: Flandres des XVe et XVIe siècles, France des années 1871-1914. Des conditions sociales comparables donnent naissance à l’intimisme de Van Eyck et de Quentin Metsys, de Vuillard et de Bonnard.

(pag 23) Les Epoux Arnolfini de Van Eyck offrent le modèle le plus accompli de genre. Mari et femme se tiennent par la main. Le lien qui les unit est matérialisé par un contact physique sans insistance: signe de consentement, et non de sujétion. Le prêteur et sa femme du tableau de Metsys (musée du Louvre) sont assis, épaule contre épaule. Le Maître de Francfort s’est représenté avec sa femme dans une toile de la collection Van der Elst: leurs corps se touchent et elle lui tend une fleur.

Il se aurait été de même dans La Conversation, si la fenêtre – l’art – n’etait venue l ‘interrompre. Elle a séparé les époux et, comme s’ils venaient soudain d’apprendre une nouvelle grave, substitué à la quiétude familiale un climat de solennité hiératique. Et en verité, c’est un autre schéma compositionnel qui vient s’introduire alors, à mi-chemin et formellement et par son sens, du tableau du couple et de la trinité théophanique: celui de l’annonciation où l’un des personnages apprend `l’autre l’existence de la divinité, qui poutant n’est encore qu’implicite, constituant de la sorte un triangle dont le sommet dominant est invisible. Dans La Conversation, l’homme est séparé de la femme comme l’est l’ange de la Vierge dans d’innombrables annonciations, et l’on songe particulièrement à celle de Fra Angelico dans les Scènes de la vie de Jesus-Christ, où ce qui les sépare, c’est une fenêtre ouverte sur un jardin ou encore, à L’Ange et la Vierge de l’Annonciation sur les volets d’orgue de Santa Maria dei Miracoli, à Venise, par Giovanni Bellini (aujourd’hui à l’Academia). L’homme, ici, joue le rôle actif de l’ange menssager et la femme celui, passif, de la Vierge, qui reçoit l’annonce: c’est par le peintre que s’introduit dans la maison la “force étrangère” à la “vie normale”.

(pag 24) L’arrière-fond dramatique de La Conversation, tableau en apparence si serein et, dans tous les sens de l’expression, “sans histoires”, vient de ce que s’y laisse mesurer très précisément un détournement tellement considérable qu’on le qualifierait volontiers de mutation: la “force étrangère” intervient dans une ouvre qui se voulait un équivalent moderne des Epoux Arnolfini pour la tirer, à travers de stade intermédiaire d’une annonciation, versa une épiphanie. De quel dieu? La peinture, mais à condition d’ajouter que celle-ci a subi une tranformation violente, que la comparaison du tableau de Van Eyck et de la toile de Matisse nous permet de saisir. Car la peinture est également nommée par le peintre flamand. Son emblème est le miroir posé sur la cheminée, au fond du tableau. Il ne sépare pas le couple, ne menace pas leur foyer. Il renvoie à la chambre, la reflète en la concentrant. L’univers, maîtrisé et miniaturisé grâce aux lois de la perspective, devient objet d’art, objet de collection. Tout autre est l’image de la peinture dont est porteuse la fenêtre (il y a une fenêtre dans le Van Eyck, mas exilée dans le coin gauche, presque éliminée par la perspective). Dans La Conversation, elle est en majesté: frontale, bidimensionnelle, rayonnante, en expansion. Non pas reflet, mais source de lumière. Non pas s’évasant , au-delà de sa surface, en espace fictif, mais projetée, à partir du plan, vers nous. Façonnée pour l’espace réel, qui est le lieu, commun à tous, où communication et communion s’establissent.

Cette peinture-là parle comme parlait, dans les civilisations qu’il imprégnait, le sacré. En déduira-t-on. Ainsi que l’a fait André Malraux dans son Musée imaginaire, que l’art s’est substitué aux dieux? Le langange nouveau, élaboré au long du XIXe siècle pour culminer en Matisse se compose de signes auxquels leur incandescence interdit d’exprimer autre chose qu´un sacré, à l’heure même où la mort de Dieu proclamée par Mallarmé et Nietzche s ‘impose aux esprits les plus divers. Les sens sublimes appropriés aux signes de la nouvelle peinture, il faudra donc les chercher au sein même d’une existence prosaïque: la parole de Patmos dans le cadre de L’Ecornifleur. Cet écart vertigineux à réduire (et, en même temps, à maintenir, puisqu’il est le moteur du peindre) définit le champ que Matisse parcourra pendant une carrière de plus de soixante ans. On en reconnaîtra l ‘image parfaite dans La Conversation: la “ révélation” – Matisse lui-même écrit le mot en majuscules soulingnées – de la fenêtre flamboyante foudroie un monsieur en pyjama rayé.

Voilà! C’est tout!


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11 comentários em “Sobre o blog (A inspiração do Jardim)

  1. angela disse:

    Maria Elisa, parabéns! Gostei muito, muito. bonne chance!

  2. Alexandre disse:

    Excelente, Nequinha. Lembrei de um livro que li recentemente, Wings of Madness, biografia do Santos Dumont escrita por um americano. Descreve detalhadamente a atmosfera de Paris no comeco do seculo passado. Curiosamente, Santos Dumont tambem morou em Paris e depois se mudou para o Sul da Franca.

    • Xand, que legal, este comentário só poderia ser seu! Ontem, depois de ver no FB que você tinha “curtido” este primeiro texto, fiquei imaginando a “sua janela para o jardim” cheia de aviões do lado de fora (no lugar das tulipas)! Ainda bem que a Ana adora viajar, assim a metáfora cai bem para o casal!

  3. Ivany Pino disse:

    Maria Elisa como é bom reencontr-la com sua sensibilidade!!!! A visita ao seu blog trouxe-me grande prazer e alegria!
    Excelente começo!!!!!!

  4. LuisD disse:

    That’s my baby! Muito bom, Neca!

  5. lramosnotre disse:

    Elisa, ao ler sobre o nascimento do seu blog, imediatamente me deu vontade de mergulhar em suas palavras, afinal, uma pessoa tão interessante certamente terá belas palavras a nos dizer. Confesso que hj não consegui ler na íntegra tudo o que você escreveu, mas quero registrar minhas primeiras impressões.
    Penso que ao se descrever, você deveria acrescentar ; Sou as tulipas que ilustram meu blog. Sensíveis, delicadas, uma flor que não é encontrada em jardins mal cuidados, uma flor que exige um cultivo cuidadoso, com mãos sábias. VOCÊ É ASSIM!!!!
    Quero ajudar a cultivar seu jardim, sentir o cheiro das flores, me embreagar em suas cores e admirar a beleza de cada florescer!

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