Meu Encontro com Proust

Recentemente, eu o Luis e as crianças fizemos uma viagem por lugares da minha remota infância, nos Estados Unidos. Algumas semanas antes desta viagem, enquanto eu terminava os últimos preparativos, ou ainda, me preparava emocionalmente para revisitar meu passado, meu filho mais velho trouxe como lição de casa fazer uma pesquisa sobre o livro que o pai ou a mãe mais gostaram de ler. “Que delícia de lição”, logo pensei!.

Pois bem, pensei em muitos livros; pensei nos meus autores preferidos, na verdade mulheres – Clarice Lispector e Virgínia Woolf-, mas não tive muita dúvida em responder que era “Em Busca do Tempo Perdido”. Expliquei a ele um pouco do que se tratava o livro e segui dando uma longa justificativa sobre o meu interesse. Meu filho disse, então: “está bom mãe, não precisa falar tanto! Não vou escrever tudo isto…” Acho que nesta idade eu também não gostava muito de escrever; acredito que seja normal um certa economia de palavras no texto para aqueles que estão começando a dominar o código da escrita (não apenas para prevenir os erros de ortografia e gramática, que ainda acontecem com frequência – e sempre acontecerão!-, mas também para não nos expormos demais – afinal, a escrita é sempre um grande exposição!). Eu disse a ele que a justificativa era mais importante do que o nome da obra, pois o que importa não é o livro, mas o que este livro significa para um (e cada) leitor, em especial. Então, abreviei um pouco meu relato, explicando apenas que se tratavam de memórias, muitas de infância, e que a primeira sensação que tive ao pegar o livro nas mãos e ler as primeiras 2 ou 3 páginas foi de certeza de que eu me encantaria pela narrativa, quase com a sensação de que eu já conhecia esta história antes mesmo dela ser contada. (Quem quiser apreciar algumas destas páginas iniciais, elas foram colocadas no blog, no post anterior.) Meu filho acabou de escrever a lição, fechou o caderno e o guardou na mochila. Eu, no entanto, continuei pensando no livro pelo resto do dia… Até porque, a história da minha relação com o livro se cruzava também com a história do nascimento do meu filho, de uma forma curiosa, como vocês verão mais adiante.

Lembrei-me que fui apresentada ao livro por um professor de uma das minhas matérias do curso de filosofia; um curso relacionado à chamada Escola de Frankfurt, sobretudo a Adorno e suas relações com Walter Benjamim, importante crítico e tradutor de Proust. O professor nos disse que não seria obrigatório ler este livro, mas que ninguém perguntasse a ele quais eram as páginas onde se encontrava a célebre passagem da Madeleine, pois ele não diria, de jeito nenhum! Para quem nunca ouviu falar desta passagem, trata-se do momento em que – após tentar repetida e frustradamente buscar suas memórias diretamente através da sua consciência – o narrador finalmente chega a elas através de uma forma inesperada, ao provar um doce que não comia havia muito tempo, a madeleine, e sentir um gosto familiar de sua infância. Segundo o professor, se alguém quisesse lê-lo, como referência, teria que lê-lo por inteiro, senão seria como assassinar o livro. Bem, isto fazia total sentido com o tema do curso, já que uma das indagações dos críticos de Proust era entender como era possível um livro de 7 volumes, com narrativas longas e parágrafos (ou mesmo frases!) de várias páginas sobreviver em tempos do capitalismo, onde as engrenagens do famoso filme do Chaplin Tempos Modernos parecem atropelar o tempo e a relação das pessoas com ele, fazendo com que tudo seja experimentado em quantidades fracionárias, mais palatáveis ao mundo do consumo. Diga-se de passagem, toda esta discussão em tempos em que a internet nem era um sonho ainda! Mas a ideia da fragmentação do tempo e da experiência humana  já se anunciava, de certa forma, conceitualmente. Neste contexto, fiquei curiosa e, embora o trabalho final do curso fosse na verdade sobre um texto crítico de Adorno à peça de Samuel Beckett (Fim de Partida – ou Fim de Festa), resolvi comprar pelo menos o primeiro volume da narrativa de Proust e ver se eu conseguiria me entregar àquilo que ainda não estava claro se seria uma difícil ou prazerosa tarefa. Como eu já disse, a resposta vocês já sabem! Fiquei absolutamente encantada! A maneira tão subjetiva de contar a sua relação com o mundo, com o espaço e com o tempo era absolutamente magnetizante; não era preciso justificar mais sobre a importância de Proust na história recente da literatura mundial. Assim, chegar até o famoso trecho da Madeleine não foi nenhum castigo, mas puro deleite. Bem observado que tudo isto ocorreu em tempos onde o “Meu tempo” era de fato “todo Meu” e eu podia dispor dele como bem quisesse! Tanto gostei do livro, que no final do ano meu irmão me deu o segundo volume de Natal, o qual li também interessadamente. Depois disto, no entanto, o tempo ficou mais escasso, acabei inclusive abandonando o curso por motivos de mudanças de horário de trabalho (já que esta era minha segunda graduação…) e, desta forma, os dois primeiros volumes de Em Busca do Tempo Perdido foram guardados nas prateleiras, sem o restante de seus companheiros. Confesso que pelo mesmo argumento do meu professor, jamais pensei em comprar o último volume da coleção (o número 7) apenas para saber o final. Inclusive porque, neste caso, estava claro que o final não parecia ser o importante, mas sim a narrativa. O processo da memória, afinal, também pode ser encarado com uma grande viagem; enfim, uma jornada!

Alguns anos depois, já desligada do curso de filosofia, resolvi retomar a ideia de fazer alguns cursos como ouvinte, agora no Instituto de Línguas, que oferecia uma grade noturna mais compatível com meus horários de trabalho. Foi então que fiquei grávida, justamente do meu primeiro filho, e quando estava já no final da gravidez, resolvi fazer um curso  sobre Proust. Meu filho nasceria duas semanas após o início do curso, então procurei a professora e disse a ela que estava muito interessada; no entanto, eu teria que fazer uma breve interrupção no meio, quando nascesse meu filho, embora pretendesse voltar ainda antes do curso acabar. Ela sorriu e disse que não haveria problema, mas que achava difícil eu voltar depois do nascimento. Porém, assim foi. Depois do nascimento, desapareci por um mês e em seguida retornei. Ela riu, mais uma vez, e disse: “eu realmente não acreditava que você pudesse voltar!” Como o curso acontecia entre 7 e 11 da noite, com um intervalo no meio, combinei com ela que assistiria apenas uma das partes da aula, de 1 hora e 50 min (+-): alguns dias seria a primeira parte, outros a segunda, dependendo do horário de mamada do meu filho no dia (quem é mãe sabe que bebês pequenos tem horários meio inconstantes…). Ela concordou e assim seguimos. Certo dia, até me usou como exemplo para discutir a relação da criança com o tempo e disse: “Imaginem que o filho da Maria Elisa já tem uns 3 anos e ela quer ir com ele, à pé, numa feira perto de sua casa num domingo de manhã. Mas ela tem que voltar logo para terminar o trabalho do curso para o dia seguinte.” Então perguntou à turma: “Vocês acham que ela conseguirá ir rápido?” E respondeu também ela mesma: “Claro que não! Pois o filho pequeno vai querer parar a cada 2 metros da caminhada, entretendo-se com tudo que ele vir pela frente. Terá um compromisso apenas com o “agora”, não se ligando na relação com o depois ou com as consequências da passagem do tempo.” Todos riram, é claro, e,  também é claro, realmente não demorou muito para eu entender do que ela estava falando… (Rsrsrs de mãe!) Mas, voltando ao Proust, após a discussão de trechos de alguns dos volumes iniciais, ela pediu que comprássemos o último volume para amarrar algumas ideias do curso, bem como para discutirmos o sentido da experiência da Lembrança para Proust . Neste contexto, me senti totalmente autorizada a cometer o que eu considerava um “crime”, ou seja, dar um grande salto na obra até o seu final sem ter lido tudo o que estava no meio!

Como adoro parênteses – não disfarço – aqui vai um, apenas para comentar um fato cômico, do qual as mães vão rir muito e talvez, algumas, possam até ficar horrorizadas. Num dos últimos dias de aula, quando cheguei em casa, por volta de 9:30 da noite, talvez mais tarde – não me lembro muito bem-, não encontrei o Luis nem meu filho no apartamento. Apenas um bilhete: “Estamos no Empório do Nono” (um bar que ficava a menos de uma quadra de casa, naquela época). Gelei até a espinha (meu filho tinha apenas 2 meses!) e saí correndo como uma flecha em direção ao bar. Quando entrei – era um dia chuvoso – estavam todos apertados no bar lotado no meio do ambiente esfumaçado de cigarro e de muito barulho (naquela época, ainda não era proibido fumar em lugares públicos fechados) e lá estava o Luis com seus amigos conversando, rindo muito e tomando um chopinho com o carrinho ao lado vazio. E o Meu lindo bebê? Estava nos braços de uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida! Corri até ela e tomei-o dos seus braços com ar seco e bravo. Ela sorriu sem graça, “Ah, você é a mãe?” e pediu mil desculpas, justificando que tinha achado-o tão fofo e que era tão inusitado um bebê no bar àquela hora, que não resistiu e pediu “aos rapazes” da mesa para pegá-lo um pouquinho no colo! Bem, eu estava tão preocupada com tudo que nem tive tempo de sentir remorsos – sentimento que até caberia pelo meu jeito rude – afinal, dada a explicação, era apenas uma outra mulher com seu instinto maternal de plantão! Dei uma grande bronca no Luis (é claro!) e saímos logo de volta para casa. Senti, de alguma forma, que estava acabada a minha festa das saídas noturnas para encontrar-me com Proust, em busca do tempo perdido. Depois disto, mesmo depois da bronca, não me sentiria mais autorizada a sair novamente e deixar meus dois homens sozinhos abandonados ao destino! Pensando bem, será que a professora tinha razão na sua indagação sobre a minha volta, afinal? De qualquer forma, que falta não faz uma mulher para colocar ordem numa casa, não é mesmo?! Rsrsrs…

Bem, o leitor poderá estranhar, mas terei que fazer aqui uma parada, justamente após o fechamento deste parêntese. O texto ficou longo demais. Tendo em vista que o meu leitor em potencial também não tem Todo o tempo do mundo para si próprio e também temendo não passar pelo “departamento de censura” que revisa alguns textos para mim, achei melhor terminar do mesmo jeito que a Sherazade, reservando para o leitor a continuação apenas para o próximo capítulo! 🙂

O Livro: Em Busca do Tempo Perdido

Este post é simplesmente uma citação que será referência para o próximo post. Pensei em deixá-lo no final do meu texto, como uma nota complementar para quem quisesse se aventurar a lê-lo. No entanto, pensei mais sobre o assunto e cheguei à conclusão de que não teria coragem de colocar o trecho inicial de uma das maiores obras literárias de todos os tempos numa simples nota de rodapé. Não, não: este pecado eu não cometeria! Então, aí vai:

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Primeiras páginas de Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann (Marcel Proust – bibliografia no final)

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. Essa crença sobrevivia alguns segundos ao despertar; não chocava minha razão, mas pairava-me como um véu sobre os olhos, impedindo-os de ver que a luz já estava acesa. Depois começava a parecer-me ininteligível, como, após metempsicose, os pensamentos de uma existência anterior; o tema da obra destacava-se de mim, ficando eu livre para adaptar-me ou não a ele; em seguida recuperava a vista, atônito de encontrar em derredor uma obscuridade, suave e repousante para os olhos, mas talvez ainda mais para o espírito, ao qual se apresentava como algo sem causa, incompreensível, algo de verdadeiramente obscuro. Indagava comigo que horas seriam; ouvia o silvo dos trens que , ora mais, ora menos afastado, e marcando as distâncias como o canto de um pássaro em uma floresta, descrevia-me a extensão do campo deserto, onde o viajante se apressa em direção à parada próxima: o caminho que ele segue vai lhe ficar gravado na lembrança com a excitação produzida pelos lugares novos, os atos inabituais, pela recente conversa e as despedidas trocadas à luz de lâmpada estranha que ainda o acompanham no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso.

Apoiava brandamente minhas faces contra as belas faces do travesseiro que, cheias e frescas, são como as faces de nossa infância. Riscava um fósforo para o olhar o relógio. Em breve seria meia-noite. É esse o instante em que o efermo obrigado a partir e que teve de pousar em um hotel desconhecido, desperto por uma crise, alegra-se ao perceber debaixo da porta uma raia de luz. Que ventura! Já é dia! Dentro em pouco os criados se levantarão, poderá chamar, virão prestar-lhe socorro. A esperança de ser aliviado lhe dá ânimo para sofrer. Agora mesmo julgou ouvir passos; os passos se aproximam, depois se afastam. E a raia de luz que estava sob a porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; o último criado partiu, e será preciso ficar toda a noite a sofrer sem remédio .

Tornava a adormecer, e às vezes não despertava senão por um breve instante, mas o suficiente para ouvir os estalidos orgânicos das madeiras, para abrir os olhos e fixar o caleidoscópio da escuridão e saborear, graças a um lampejo momentâneo de consciência, o sono em que estavam mergulhados os móveis, o quarto, aquele todo do qual eu não era mais que uma parte mínima e em cuja insensibilidade logo tornava a integrar-me. Ou então, enquanto dormia, retrocedera sem esforço a uma época para sempre transcorrida de minha primitiva existência, tornando a encontrar alguns de meus terrores infantis, como o medo de que meu tio-avô me puxasse os cachos e que se dissipara no dia  – início para mim de uma nova era – em que mos haviam cortado. Tal acontecimento, eu o esquecera durante  o sono, mas sua lembrança voltava-me assim que conseguia despertar para fugir às mãos de meu tio-avô; em todo caso, como medida de precaução, envolvia completamente a cabeça com o travesseiro antes de regressar ao mundo dos sonhos.

Às vezes, como nasceu Eva de uma costela de Adão, nascia uma mulher, durante meu sono, de uma falsa posição de minha coxa. Oriunda do prazer que eu estava a ponto de epxerimentar, imaginava que era ela que mo oferecia. Meu corpo, que sentia do ela meu próprio calor, procurava juntar-se-lhe, e eu despertava. O resto dos humanos se me afigurava como coisa muito remota em comparação com aquela mulher que eu havia deixado momentos antes; minha face estava ainda quente de seu beijo e meus membros doloridos pelo peso de seu corpo. Se, como às vezes acontecia, apresentava os traços de alguma mulher a quem conhecera na vida, ia dedicar-me inteiramente  a este fim: encontrá-la, tal como os que empreendem uma viagem para ver com os próprios olhos uma desejada cidade e imaginam que se pode gozar, em uma coisa real, o encanto da coisa sonhada. Pouco a pouco sua lembrança se dissipava, e eu esquecia a filha de meu sonho.

Um homem que dorme mantém em círculo em torno de si o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Ao acordar consulta-os instintivamente e neles verifica em um segundo o ponto da terra em que se acha, o tempo que decorreu até despertar; essa ordenação, porém, pode-se confundir e romper. Se acaso pela madrugada, após uma insônia, vem o sono surpreendê-lo durante a leitura, em uma posição muito diversa daquela em que dorme habitualmente, basta seu braço erguido para deter e fazer recuar o sol, e , no primeiro minuto em que desperte, já não saberá da hora, e ficará pensando que acabou apenas de deitar-se. Se adormece em posição ainda mais insólita e contrafeita, por exemplo sentado em uma poltrona depois do jantar, dar-se-á então uma completa reviravolta nos mundos desorbitados, a cadeira mágica o fará viajar a toda velocidade no empo e no espaço, e , no momento de abrir as pálpebras, pensará que está deitado alguns meses antes, em uma terra diferente. Quanto a mim, no entanto, bastava que estivesse a dormir em meu próprio leito e que o sono fosse bastante profundo para relaxar-se a tensão de meu espírito, o qual perdia então a planta do local onde eu adormecera; assim, quando acordava no meio da noite, e como ignorasse onde se achava, no primeiro instante nem mesmo sabia quem era; tinha apenas, em sua singeleza primitiva, o sentimento da existência, tal como pode fremir no fundo de um animal; estava mais desapercebido que o homem das cavernas; mas aí a lembrança – não ainda do local em que me achava, mas deu alguns outros que havia habitado e onde poderia estar – vinha a mim como um socorro do alto para me tirar do nada, de onde não poderia sair sozinho; passava em um segundo por cima de séculos de civilização e a imagem confusamente entrevista de lampiões de querosene, depois de camisas de gola virada, recompunha pouco a pouco os traços originais de meu próprio eu.

(…)

Sem dúvida que eu estava agora bem desperto, meu corpo dera uma última volta e o bom anjo da certeza imobilizara tudo em redor de mim, deitara-me sob minhas cobertas, em meu quarto, e pusera aproximadamente em seu lugar, no escuro, minha cômoda, minha mesa de trabalho, minha lareira, a janela da rua e as duas portas. Mas embora soubesse que não me achava nesses quartos, cuja presença a ignorância do despertar me apresentara ao menos como possível, sem todavia oferecer-me sua imagem distinta, a verdade é que me fora dado um impulso à memória; em geral, não tentava adormecer logo em seguida; passava a maior parte da noite a recordar minha vida de outrora, em casa de minha tia-avó em Combray, em Balbec, em Paris, em Doncières, em Veneza, em outras partes ainda, a recordar os lugares, as pessoas que ali conhecera, tudo o que delas tinha visto, o que me haviam contado a seu respeito.

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Bibliografia

PROUST, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido: No Caminho de Swann. Tradução: Mario Quintana. São Paulo: Ed. Globo, 1997. Páginas 9 a 15

Paul Theroux – “Foi por medo de avião…”

“Que eu segurei pela primeira vez na sua mão”, como diria o Belchior do tempo dos meus pais. Não há dúvidas de que segurar na mão de alguém na hora do medo é o que existe de mais tranquilizador. Se for da “pessoa amada”, tanto melhor! Mas dizem que a Lady Di também ficou muito amiga da embaxatriz Lúcia Flecha de Lima depois de uma tempestade com grande turbulência de avião em terras brasileiras, quando esta acalmou a princesa. Verdade ou não, amizades e amores que começam dentro do avião onde uma das pessoas tem medo já foi tema de filme e é um assunto bastante curioso. Afinal, muitas vezes, é lá onde estão as dificuldades, e em sua superação, que muitas histórias de cumplicidade desabrocham com intensidade.

Bem, este texto foi escrito há alguns meses, porém, neste momento, por diversos motivos, parece fazer todo o sentido publicá-lo, já que acabamos de voltar de ma viagem em que estes temas estiveram presentes mais uma vez.

A idéia deste post, na verdade, surgiu para voltar ao território do viajante no blog, aproveitando uma conversa que tive com uma amiga, ainda durante as últimas férias escolares, justamente sobre um medo em comum de avião. Por tudo isto, resolvi fazer um post com a citação de mais uma das minhas referências preferidas (a esta altura, já ficou claro para o leitor que este blog é também uma eśpecie de quebra-cabeça-mosaico de trechos de livros, quadros, comentários de pessoas ou filmes que me marcaram). A ideia é também dividir com vocês um texto que acho muito representativo do que significa, para mim, a viagem de longas distâncias verdadeiramente falando, ou seja, as grandes jornadas (a idéia do peregrino em contraste com o turista – para quem assistiu à palestra do Ives de la Taille da CPFL Cultura que postei há algum tempo, nas palestras sobre Educação). Para quem não assisitu a esta palestra, ela é – para além do contexto da viagem – uma grande crítica aos valores dos tempos atuais. Tempos em que se valoriza sempre a chegada, esquecendo-se da trajetória que fez com que chegássemos até lá, ou seja, esquecendo-se da idéia de “construção”, tão importante para a vida – seja qual for o plano da vida para o qual nosso olhar estiver focado!

Voltando ao texto que apresentarei, trata-se de parte da introdução do livro “The Old Patagonian Express”, do autor Paul Theroux. Por muito tempo o Luis sugeriu que eu fizesse esta leitura, já que o autor é um dos seus preferidos sobre o assunto de viagens, um assunto tão caro a nós dois. Porém, confesso que como não uso o inglês com tanta regularidade quanto gostaria, sempre fico com certa preguiça de ler nesta língua, pela lentidão do meu vocabulário. No entanto, no ano retrasado, após voltar de uma viagem em que fizemos um trecho relativamente comprido de trem (de São Francisco a Seattle, uma noite inteira e parte de um dia), ficamos muito surpresos e felizes com a experiência. Na verdade, não imaginávamos que no país dos aeroportos e dos aviões pudéssemos ter uma experiência tão agradável sobre os trilhos. Assim, quando voltamos ao Brasil, resolvi embarcar nesta viagem literária do Paul Theroux que começa em Boston rumo à Patagônia justamente de trem.

Além disto, como já falei, é um texto muito bem-humorado (ou talvez o contrário – escrito exatamente por um autor um tanto quanto mal-humorado!) na sua referência às viagens de avião, já que ele parece ser, como eu, alguém que também padece do tal medo. Por isto, eu dedico alguns destes parágrafos aos meus queridos companheiros de medo de avião! 🙂 . É  dedicado também (um pouco ironicamente, embora muito carinhosamente também!) ao meu querido irmão, que teve como um dos seus grandes sonhos de vida trabalhar como engenheiro projetista de aviões e seguiu este sonho com tanta coragem e sucesso. Digo isto com orgulho de irmã! E assumo que até me emocionei quando o primeiro avião do qual ele trabalhou no projeto voou pela primeira vez (quase com a mesma emoção de alguém que vê uma criança andar pela primeira vez depois de tantas noites em claro – diga-se de passagem, quem trabalha ou já trabalhou com projetos, de qualquer tipo, também sabe do que estou falando…: ver a coisa “rodando”, funcionando ou voando!, depois de tanto trabalho é mesmo de mexer com as emoções! Meu irmão é sempre meu consultor sobre as quedas famosas de avião. E sempre começa rindo e dizendo: “veja bem, em primeiro lugar, o avião que teve problemas não era da companhia para a qual eu trabalho!” (Algumas piadas são típicas do meio!)

Nesta mesma viagem em que fizemos o percurso de trem, este tema do medo já tinha aparecido. Não apenas pelo meu nervosismo de sempre – mãos suadas na decolagem, aterrisagem e momentos de turbulência; um ritual enorme antes de entrar no avião (algumas garrafas de água para aguentar o ar seco sem ter que ficar pedindo para a aeromoça toda hora, chicletes para melhorar a sensação do ouvido na decolagem e aterrisagem, a necessidade de tomar um vinho ou um Dramin em viagens maiores para poder relaxar etc.) – , mas, também, por outras coincidências. Ao chegarmos em Dallas e entrarmos na fila dos passaportes estavam na nossa frente dois homens de idade próxima à nossa, que pareciam estar em viagem a trabalho para algum curso da empresa (pareciam ser da Embraer). Um deles dizia para o outro que sua mulher precisou de um tratamento de mais de um ano com duas sessões semanais de terapia para conseguir viajar de avião pela primeira vez. Agora, eles já podiam fazer viagens curtas, como para a Bahia; mesmo assim, abaixo de vários remédios calmantes e sempre com a condição de que não saíssem em mau tempo e de que os vôos fossem sempre de aviões da Embraer ou da Boeing e jamais da TAM (bem, parece que alguns assuntos são mais do que apenas piadas do meio!). Achei engraçado e, enquanto pensava “tomara que o tempo esteja bom entre Dallas e São Francisco”, pensava também: tem gente muito pior do que eu neste assunto! Logo depois que voltarmos ao Brasil, saiu uma coluna do Ferreira Gular na Folha de São Paulo extremamente bem-humorada, falando justamente sobre o medo dele de avião e sua decisão de nunca mais pisar em um! (a coluna é do dia 8 de agosto de 2010 – assim que der, farei um post com seu conteúdo). Então, quando comecei a ler o livro, o assunto estava totalmente em alta para mim e me diverti muito!

Segue o texto… Apenas para contextualizar, ele está explicando a motivação de tão longa viagem de trem, assim como a motivação do próprio livro, fazendo também uma crítica aos muitos livros de viagem que começam já no seu destino, ao invés de descever a trajetória até o autor, ou personagem, chegar até lá. Grifei as partes mais relevantes para quem tiver preguiça ou dificuldade de ler tudo em inglês.

Travel is a vanishing act, a solitary trip down a pinched line of geography to oblivion.

“What’s become of Waring

Since he gave us all the slip?”

But travel book is the opposite, the loner bouncing back bigger than life to tell the story of his experiment with space. It is the simplest sort of narrative, an explanation which is is own excuse for the gathering up and the going. It is motion given order by its repetition in words. That sort of disappearance is elemental, but few come back silent. And yet the convention is to telescope travel writing, to start – as so many novels do – in the middle of things, to beach the reader in a bizarre place without having first guided him there. “The white ants had made a meal of my hammock”, the book might begin; or, “Down there, the Patagonian valley deepened to Grey rock, wearing its eons stripes and split floods.” Or, “From the balcony of my room I had a panoramic view over Accra, capital of Ghana (Which Tribe Do You Belong To? By Alberto Moraiva).

My usual question, unanswered by these – by most – travel books, is: How did you get there? Even without suggestion of a motive, a prologue is welcome, since the going is often as fascinating as the arrival. Yet, because curiosity implies delay, and delay is regarded as luxury (but what the hurry, anyway?), we have become used do life being a series of arrivals or departures, of triumphs and failures, with nothing noteworthy in between. Summits matter, but what of the lower slopes of Parnassus? We have not lost faith in journeys from home, but the texts are scarce. Departure is described as a moment of panic and ticket-checking in an airport lounge, or a fumbled kiss at a gangway; then silence until, “From the balcony of my room I had a panoramic view over Accra…”

Travel, truly, is otherwise. From the second you wake up you are headed for the foreign place, and each step (now past the cuckoo clock, now down Fulton to the Fellsway) brings you closer. …

The literature of travel has become measly, the standard opening that farcial-against-the-porthole view from the plane’s titled fuselage. The joke-opening, that straining for effect, is now so familiar it is nearly impossible to parody. How does it go? ‘Below us lay the tropical green, the flooded valley, the patchwork quilt of farms, and as we penetrated the cloud I could see dirt roads threading their way into the hills and cars so small they looked like toys. We circled the airport and, as we came in low for landing, I saw the stately palms, the harvest, the rooftops of shabby houses, the square fields stitched together with crude fences, the people like ants, the colorful…’

I have never found this sort of guesswork very convincing. When I am landing in a plane my heart is in my mouth; I wonder – doesn’t everyone? – if we are going to crash. My life flashes before me, a brief selection of sordid and pathetic trivialities. Then a voice tells me to stay in my seat until the plane comes to a complete stop; and when we land the loud-speakers break into orchestral version of Moon River. I suppose if I had nerve to look around I might see a travel writer scribbling, ‘ Below us lay the tropical green – ‘. (Nota: esta descrição da aterrisagem é demais!!!)

Meanwhile, what of the journey itself? Perhaps there is nothing to say. There is not much to say about aeroplane journeys. Anything remarkable must be disastrous, so you define a good flight by negatives: you didn’t get hijacked, you didn’t crash, you didn’t throw up, you weren’t late, you weren’t nauseated by the food. So you are grateful. The gratitude brings such relief your mind goes blank, which is appropriate, for the aeroplane passenger is a time-traveler. He crawls into a carpeted tube into that is reeking of disinfectant; he is strapped in to go home, or away. Time is truncated, or in any case warped: he leaves in one time-zone and emerges in another. And from the moment he steps into tube and braces his knees on the seat in front, uncomfortably upright – from the moment he departs, his mind is focused on arrival. That is, if he has any sense at all. If he looked out the window he would see nothing but the tundra of the cloud layer, and above is empty space. Time is brilliantly blinded: there is nothing to see. …

But apologies are not necessary. An aeroplane flight may not be travel in any accepted sense, but it certainly is magic. Anyone with the price of a ticket can conjure up castled crag of Drachenfels or the Lake Isle of Innisfree by simply using the right escalator at, say, Logan Airport in Boston – but it must be said that there is probably more to animate the mind, more of travel, in that one ascent on the escalator, than in the whole plane journey put together. The rest, the foreign country, what constitutes the arrival, is the ramp of an evil-smelling airport. If the passenger conceives of this species of transfer as travel and offers the public his book, the first foreigner the reader meets is either a clothes-grubbing customs man or a mustached demon at the immigration desk. Although it has become the way of the world, we still ought to lament the fact that aeroplanes have made us insensitive to space; we are encumbered, like lovers in suits of armour.

This is obvious. What interests me is the waking in the morning, the progress from familiar to the slightly odd, to the rather strange, to the totally foreign, and finally to the outlandish. The journey, not the arrival, matters; the voyage, not the landing. Feeling cheated that way by other travel books, and wondering what exactly it is I have denied, I decided to experiment by making my way to travel-book country, as far south as the trains run from Medford, Massachusetts; to end my book where travel books begin.

A Escolha da Escola para os Filhos

Seguindo os últimos Posts, sobre o fim da primeira infância, e para comemorar esta fase, ou este ritual de passagem, resolvi mergulhar em outras memórias de textos que eu escrevi para algumas amigas na época em que este processo todo começou e portanto era ainda mais intenso em suas emoções. Escolhi começar com um texto sobre as sensações do processo de escolha da escola para as crianças.  Olhando agora para trás, 3 anos depois, já vejo muitos frutos e tenho a certeza de que continuo acreditando nos mesmos sentimentos daquela época.

A Escolha da Escola

Escolher uma escola para um filho não é tarefa simples, todas sabemos disto. É tempo de visitas às escolas para conhecer o espaço, o clima, as outras crianças; de conversas com as coordenadoras para entender as propostas pedagógicas e, sobretudo, tempo de conversas com outras mães para conhecer suas experiências e opiniões – conversas com gente que pensa como nós e também com gente que reconhecidamente pensa diferente de nós. Fazemos aquele grande balaio onde colocamos tudo, filtramos e tentamos tirar o melhor que podemos no nosso momento, dentro das nossas restrições financeiras, de horários e de distância. Mas, para alguns, esta tarefa não é fácil e parece não ter fim. Fiquei o ano todo pensando nesta questão escolar. A certa altura, o Luis começou a se irritar. Puxa, estamos falando de várias escolas boas, no final não faz tanta diferença assim. Imagine que eu estudei numa cidade pequena onde havia pouquíssimas opções, em escola pública. No final das contas, o que seria o melhor mesmo não conseguiremos saber de verdade, vai depender de muitas outras variáveis , o importante é decidir e parar com este questionamento sem fim.

Então, em um final de semana fomos a um churrasco em São Paulo na casa de um casal de amigos que também são da mesma cidade que o Luis  e estudaram juntos com ele por alguns períodos. Conversa vai, conversa vem, e toco na questão da difícil decisão. Ela começa a rir e diz “nossa, parece o meu marido falando”. E, sem querer dizer que os homens são todos iguais, pois com certeza sabemos que não o são, a tal piada é sempre engraçada, pois um certo jeito de funcionar masculino é mesmo muito peculiar. “Coisa de homem mesmo” – ela disse. Então, me explicou a situação dela. As suas meninas estavam super bem na escola que escolheram quando a mais velha foi para o primeiro ano. Era uma escola construtivista já bem antiga e conceituada em São Paulo. Mas ela sempre teve na cabeça que elas estudariam numa escola construtivista apenas até a 5a série, quando ela as mudaria para um dos colégios mais tradicionais de São Paulo. Mas quando esta época chegou, mudou completamente de idéia: pensou então em mudá-las para uma terceira escola, também construtivista. Mas depois de levar as meninas lá várias vezes e de passar por todo o processo, decidiu no final do ano que iria deixá-las na mesma escola onde já estavam. Segundo ela, o marido não se conformou com tanto tempo perdido na questão para no final nenhuma mudança e repetiu a mesma reclamação do Luis. Mas conversamos então que não tem nada de irrelevante neste questionamento. No final, mudar ou não, escolher esta ou aquela, não é o mais importante deste momento. O mais importante de fato é o tempo a que nos dedicamos a pensar, o processo da escolha. É um momento de rever nossos valores, lembrar da nossa própria educação e pensar naquela que queremos para nossos filhos. É um momento também de olhar para estes pequenos e de pensar na pequena pessoa que já existe ali, tentando entender para cada um deles o que será melhor (e sabemos que mesmo para filhos de uma mesma mãe às vezes existem necessidades diferentes) . É de fato um momento difícil mas muito importante para os pais e também para as crianças.

No fundo o que todas as mães e pais mais querem é que seus filhos possam ser felizes e que aprendam a administrar a própria vida de maneira autônoma e responsável. Mas quais ferramentas devem levar consigo para atingirem esta fórmula mágica que não é nem simples de ser atingida nem mesmo simples de ser medida de fora, parece ser a grande questão de indagação (penso sempre no famoso filme do Tornatore – “Estamos todos bem”). A lista de ferramentas é grande e com certeza para cada pessoa tem itens diferentes ou mesmo prioridades bem diferentes em alguns itens que podem ser semelhantes. Não importa. Sabemos que os itens de cada pai ou mãe devem ser respeitados . E sabemos também que não é só a educação, ou a escola, que faz a vida, tem realmente um grande caldeirão de coisas ditadas pela genética, pelo meio e pela própria história que fogem do nosso controle. No entanto, sabemos que podemos e devemos contribuir muito para este processo; então pensamos, refletimos, às vezes nos debatemos até, e tentamos fazer a nossa parte, assumindo as nossas escolhas, mesmo que não tenhamos nenhuma garantia de antemão de que elas serão as escolhas mais acertadas.

Até que chegamos à grande decisão. E, às vezes, esta decisão se dá como no processo de criação, num pequeno momento em que nem mesmo estamos mais pensando naquilo. Um dia  encontrei-me com uma mãe da escola antiga (a pré-escola dos meninos) e, conversando sobre o assunto, ela disse que queria muito que os filhos estudassem numa escola que era muito longe e inviável para ela naquele momento da vida profissional dela. Então, da última vez em que ela esteve nesta escola estava um calor infernal e ela se deu conta de que tinham poucas árvores e que o ambiente era um pouco árido. No mesmo dia foi à escola que era a sua segunda opção (porém bem mais perto da sua casa) e sentiu uma sensação muito boa ao passar pelo parque das crianças que ficava num espaço bem arborizado. Ela disse que tinha pensando em tantas coisas, mas foi neste momento que tomou a decisão final. Claro que não foi este o argumento principal, mas foi aí que a resolução veio à tona.

E a mesma coisa aconteceu comigo. Num dos últimos dias em que fui visitar a escola que escolhi, já eram quase  férias e tinha um menino sentado em cima do brinquedo de madeira do parque. Ele estava lá sozinho e deu um grande sorriso pra nós. Eu já o conhecia, ele tinha o mesmo nome do meu filho mais novo e tinha morado no mesmo condomínio que nós alguns anos antes. Eu tinha me encontrado com a mãe dele havia alguns dias e ela me dissera que estavam de mudança para São Carlos. O meu pequenino tinha 1 para 2 anos na época em que fomos vizinhos e ele sempre o tratava com muito carinho, chamando-o de xará, parando o jogo de futebol dos mais velhos no pequeno gramado da área social para deixar que os pequenos chutassem um pouco a bola no gol. Às vezes subia no pé de pitanga para pegar pitanga para eles quando as pitangas da parte mais baixa já tinham acabado. Me lembro que ele tinha outros amigos que eram vizinhos também da mesma idade que estudavam em outra escola que eram super carrancudos e egoístas, nem olhavam para os meninos menores. Eu sabia que isso tinha menos a ver com a escola do que com o temperamento, educação e valores dos pais; mas, mesmo assim, naquele momento em que vi aquele menino com pele dourada de sol, com cara de moleque que estava aproveitando a infância, em cima do brinquedão da escola debaixo de uma grande árvore, tive certeza de que esta seria minha opção. De alguma forma, foi como se aquela imagem meio poética tivesse condensado todos os meus desejos e expectativas como mãe e fiz a opção num ato de fé nestes sentimentos.

Fim do texto:-)

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Bem, voltando aos dias de hoje, poderia seguir falando e contando muitas coisas sobre a minha escolha. Porém, escolhi terminar este assunto com alguns vídeos de músicas que acho muito significativas desta fase da infância e de todas as questões sobre as quais eu falei.

1. Pequeno Cidadão (Arnaldo Antunes)

O primeiro, eu empresto da própria escola dos meninos, já que é de uma música selecionada pela professora do 3o ano da escola e pelo professor de música, para encerrar um lindo trabalho que fizeram de um telejornal com as crianças. A letra da música, embora faça suas divertidas inversões, resume algo que buscamos sempre como pais e educadores e fechou com chave de ouro todo este trabalho dos últimos anos: construir cidadãos, sem deixar de respeitar todo o caminho precioso da infância. Se quisermos um mundo melhor para nossos filhos, é justamente por eles que devemos começar a construí-lo…

2.O Gigante de Floresta (Helio Ziskind)

O segundo, é de um trabalho que considero primoroso do Helio Ziskind (compositor das músicas do Cocoricó). Por coincidência, conheci este CD por sugestão da mesma amiga de São Paulo que citei acima, e foi uma grande descoberta para a nossa família. Este CD/História de um Jequitibá Milenar de Carangola (Minas Gerais) por um bom tempo foi nosso CD preferido em casa. Em parte, porque fala de uma árvore tão especial e as árvores são objetos de sonhos da nossa casa. Muito mais por influência do Luis e da sua família do que da minha. Tanto ele quanto seu pai, e agora os meninos também, adoram experimentar frutos diferentes, saber nomes das árvores e buscar sementes diferentes para plantar. Costumo dizer que as únicas pessoas do mundo que eu conheço que gostam de comer o fruto do Jatobá (quem conhece o cheiro já imagina o gosto!) são o meu filho mais novo, o Luis e o seu pai!

Mas, deixo esta música aqui também, pois a árvore também é o símbolo da escola que escolhemos. Em tempos em que o mundo está numa corrida maluca por mais e mais informação, mais e mais tecnologia, mais conhecimento, mais estudos de línguas já desde os primeiros anos de vida, esta escola (assim como outras que eu conheço), fizeram e continuam a fazer uma escolha que considero muito acertada (sem deixar de atender a todo o resto do necessário, que fique claro!) por algo que, a meu ver, talvez seja o instrumento mais importante do desenvolvimento da infância: a convivência com o espaço da Aŕvore (espaço privilegiado da brincadeira, da criação e da liberdade). Sabemos que todo o resto virá depois, na sequência, e a seu tempo, mas a infância não vivida adequadamente na fase em que ela deve ser, trará faltas permanentes para os futuros adultos, sobretudo em tempos em que a casa já não atende mais a este papel como deveria, por diversos aspectos do estilo de vida atual. Além disto, tudo o que simboliza o respeito pela natureza se dá nesta fase tão importante muito mais pelo exemplo e pelo contato direto, do que por discursos vazios de ecologia que de tão abstratos passam a ser quase que uma narração distante e sem sentido, quando colocados fora de contexto para as crianças. Então, fica aqui esta música como símbolo tão poético e importante desta fase importantíssima da vida.

3. Tema do Pedrinho – Sítio do Picapau Amarelo

A terceira é uma música que nem preciso explicar! Com certeza está intimamente relacionada à imagem de infância que eu sempre desejei para os meus filhos. Mas tenho certeza também de que para toda a minha geração, que assistiu diariamente às estórias do Monteiro Lobato na Televisão, esta imagem deve ser também muito viva.

Palestras sobre Educação – Curadoria Rosely Sayão

Para completar o tema da infância (primeira, segunda, adolescência, infância adulta, seja ela qual for…) segue a referência de uma sequencia de palestras imperdíveis da CPFL Cultura, do modulo de curadoria da Rosely SayãoRelações familiares no mundo contemporâneo: a educação dos filhos.

1. Filhos… melhor não tê-los?Rosely Sayão (Palestra gravada no dia 9 de abril de 2010 em Campinas).

2. A família no fogo cruzado da educação contemporânea – Julio Groppa Aquino (Gravada no dia 16 de abril de 2010 em Campinas).

3. Educação moral e tédio (Do Tédio ao Respeito de Si: Educação Moral e Formação Ética) – Yves de La Taille (Gravada em Campinas no dia 23 de abril de 2010).

São compridas as palestras, mas muito, muito interessantes!

Parêntesis: O Fim da Primeira Infância

Final de ano, pouco tempo para escrever… Não desisti de contar a viagem de Istambul ao Cairo; ela continua em breve com suas memórias, muitas já escritas – apenas esperando fotos a serem digitalizadas e alguns links. No entanto, mais uma vez, vou render-me ao movimento de voltar lá de longe aqui para dentro, por alguns instantes, para falar de um assunto sobre o qual eu pretendia falar apenas depois desta temporada de assuntos de viagens esquecidas no tempo, mas que está tão vivo e atual que preciso pelo menos passear um pouco por ele, ou começar uma trajetória paralela.

Época de fim de aulas é sempre tempo de reflexões. E, neste ano, em particular, existe um ritual de passagem, muito tênue, porém extremamente importante para meus filhos e para mim como mãe. Um deles terminou o pré (atual primeiro ano) e o outro encerrou o 3o ano (e, com este, o primeiro ciclo da escola onde estuda – ciclo de aprendizagem da leitura e da escrita formado pelos 3 primeiros anos do ensino fundamental). De alguma forma, é como se um longo processo no qual eu me vejo há alguns anos estivesse se encerrando: o final do meu período de mãe com filhos na primeira infância. Falo de um processo, pois foi exatamente assim que o vivi. Lembro-me exatamente do final do ano em que meu filho mais velho fez 6 anos e houve uma pequena formatura da turma na escola antiga. Foi neste ano, ou durante ele, mais propriamente, enquanto me deparava com o processo de escolha de uma nova escola para seguir a pré-escola (um processo cheio de dúvidas, reflexões e questionamentos), que comecei a perceber que, embora o mais novo ainda mal tivesse saído das mamadeiras, uma fase importante estava começando a se encerrar.

O momento em que esta transição começa a se delinear é extremamente marcante e cheio de sentimentos absolutamente contraditórios para todos nós. Existe um grande orgulho de ver nossos pequenos já crescidos, criando autonomia e tornando-se crianças tão especiais, cada um a sua maneira. Já absorveram muitos de nossos valores, mas também já tem os seus próprios desejos, alguns até bem curiosos para nós. São agora nossos grandes companheiros para tantas coisas (as que ensinamos eles a gostarem e as que eles nos ensinaram a gostar), como descrevi nos posts “Família Incrível” e “Petar Kids”. Alguns já escrevem e conseguem ler algumas palavras, se comunicam bem e tem muitas histórias para contar (sempre muito engraçadas, daquelas que dá vontade de escrever para nunca mais nos esquecermos delas). Muitos não tem mais medo da água, já conseguem nadar ou pelo menos se virar na piscina ou no mar. Mais do que isto, já podemos deixá-los sozinhos numa sala, ou no nosso quintal, por certo tempo, sem nos preocuparmos demais com todas as eventualidades que possam acontecer. Se o nosso trabalho de educá-los foi bem feito (e que trabalho árduo e repetitivo, meu Deus! Mas tão negligenciado por muitos pais de hoje…), já mostrarão os primeiros vestígios de cidadania. Sabemos que não é na adolescência, quando entendem completamente o sentido da palavra cidadão, que vamos ensiná-los como ser um, mas sim lá no início, nos seus primeiros anos de vida. Não só com os limites, mas com nossos próprios exemplos: de não furar fila; não estacionar em vaga de idosos e todo o resto. Quando menos esperamos, lá estão eles, indignados com as pessoas do carro da frente, no sinal, que jogaram latas e lixo pela janela. Por tudo isto e muito mais, enfim, percebemos que estão começando a florescer.

Porém, simultaneamente também, lentamente começam a se afastarem de nós, ou melhor, a não precisarem tanto de nós. Bem, este é o objetivo! Como me disse certa vez uma pediatra muito experiente: “a principal função da mãe é tornar-se sem função ao longo do tempo”. E sabemos, mães que desempenham bem esta função terão filhos com iniciativa e capacidade de viverem autonomamente suas próprias vidas. Isto não significa, frizando muito bem, que não seja permitido errar. Erraremos sempre, e isto é um pré-requisito da maternidade ou da paternidade, não podemos jamais nos esquecermos disto!

E aí está o grande bolo das contradições! Junto ao grande orgulho e felicidade – sensação de missão parcialmente cumprida – vem uma nostalgia, quando não uma tristeza, de os vermos precisando bem menos de nós. Ao grande alívio que naturalmente sentimos ao irmos recuperando nossos próprios sonhos, desejos, nosso tempo de não fazer nada, de ler, de simplesmente ficarmos parados pensando na vida ou de tocar tantos outros projetos, vem associado um sentimento de perda de algo tão precioso quanto foi este primeiro momento das crianças. Pois a primeira infância é algo tão intenso em todos os sentidos (de alegria, de prazer, de ganho de sentido de vida, mas também de trabalho, de noites em claro e de preocupações) que não há como comparar a nenhuma outra experiência em nossas vidas. Testemunhamos um crescimento físico vertiginoso (imaginem, meu filho mais velho cresceu 5 cm apenas no seu primeiro mês de vida! – o médico disse que era a barriga da mãe que estava impedindo o crescimento dado pela sua tendência genética! – rsrsrs…); mas também um crescimento cognitivo e emocional inacreditáveis: os primeiros sorrisos, as primeiras palminhas, sem contar os primeiros passos e as primeiras palavras – é algo sublime, uma experiência impossível de ser propriamente nomeada ou descrita em palavras. Lembro-me agora de um diálogo de um filme da diretora Sofia Coppola cujo roteiro (também de sua autoria) eu considero de uma grande delicadeza, embora se refira a um tema absolutamente antagônico a este. O filme chama-se “Lost in Translation” (“Encontros e Desencontros” em português) e fala de duas pessoas que estão completamente longe de suas vidas cotidianas (bem para lá do jardim) e que por serem completamente estranhas podem dividir momentos de grande cumplicidade ao verem suas vidas em perspectiva, a milhares de Kms de suas rotinas diárias e em meio a uma língua e um fuso horário completamente alheios a eles. Bem, o diálogo do filme do qual me lembrei ocorre no momento onde o personagem Bob (Bill Murray), um ator cinquentão em viagem ao Japão para fazer um comercial de whisky, conta à sua recém conhecida amiga do hotel, Charlote (a atriz Scarlett Johansson) – uma jovem de pouco mais de 20 anos que está acompanhando seu marido (um também jovem e bem-sucedido fotógrafo a trabalho em Tokyo) -, como é a experiência da paternidade:

Bob – Tudo fica bem mais complicado quando você tem filhos.
Charlote – É. Isso assusta.
Bob – O dia mais apavorante da sua vida é quando nasce o primeiro.
Charlote – Ninguém te fala isso.
Bob – A sua vida, como você conhecia, some. Nunca mais volta. Só que eles aprendem a andar e a falar e você quer estar junto deles. E eles acabam se tornando as pessoas mais encantadoras que você conhecerá em sua vida.

Acho que este diálogo, apesar de extremamente simples, resume tudo. Outra fala que para mim representa muito este processo, é a fala de uma pessoa amiga, diretora atual da escola onde estudei a maior parte dos meus anos de vida escolar. Embora não seja a escola onde meus filhos estudam hoje, tenha um profundo respeito pelo trabalho tão sério dos seus profissionais até os dias de hoje. Na palestra de apresentação da escola aos novos pais, ela diz que gosta de usar uma imagem para representar a relação dos pais com as crianças que estão crescendo. Esta imagem é a imagem de um quadro, onde os pais, em um primeiro momento, são os personagens principais e estão logo no primeiro plano, ao lado dos filhos. Conforme o tempo vai passando, os pais vão ficando menores e menos importantes neste mesmo quadro, passando para os planos anteriores. Jamais vão sumir do quadro, sempre estarão lá, mas é preciso que aceitem que sua importância vai  mudando com grande rapidez e que deixem este processo acontecer naturalmente.

Nós pais sabemos que nem sempre é fácil, sobretudo para a nossa geração, que tem por definição um grande apreço a fazer o papel principal em qualquer quadro a que pertençam. Indo ainda mais longe, alguns especialistas dizem que em certo momento os pais devem  deixar até mesmo de brilhar tanto em suas vidas pessoais e profissionais, para deixar que seus filhos brilhem mais intensamente e desenvolvam plenamente seu potencial. Mas isto será  em outro momento ainda, então deixo esta discussão para os pais que possam entender mais deste fase.

É impossível falar deste tema sem pensar nas tantas referências e falas de pessoas que foram espécies de inspirações para mim como uma jovem e iniciante mãe. Então, termino com outra fala que para mim foi igualmente marcante, vinda de outra pessoa também muito querida, mãe de dois grandes amigos meus e do meu irmão. Na 0casião do casamento de um deles, quando meu filho mais velho estava com apenas 2 meses, tivemos a seguinte conversa ao falar dos meus primeiros sentimentos sobre  a maternidade. Eu estava radiante e contei a ela sobre a minha felicidade, mas disse também algo que já tinha ouvido repetidas vezes de muitas pessoas: que eu sentia que tinha que aproveitar ao máximo esta fase, pois um dia ele cresceria e eu sabia que sentiria saudades daquela fase de bebê. Ela então me respondeu:  “aproveite mesmo, pois esta fase é linda, mas saiba que todas elas são igualmente encantadoras e que você sempre poderá aproveitar a relação com seus filhos em qualquer idade. Veja só este momento como é especial para nós, ver nosso filho se casando, feliz, assumindo a sua própria vida”. Fiquei então pensando que a maioria das pessoas fala justamente do inverso: do trabalho e das preocupações de mãe, que só mudam com o tempo, mas nunca acabam. Então, ouvir aquilo , dito de forma tão genuína e generosa por aquela experiente mãe, com certeza foi um grande incentivo para que eu pudesse curtir a vida com meus filhos, deixando-a passar como ela deveria, sabendo que sempre haveria lá na frente momentos importantes e surpreendentes me esperando (ao lado dos tantos outros dos quais todos falam, de perda, de falta e de saudades). E agora que chegamos no final de uma fase, já podemos dizer por experiência própria que o que ela disse é a mais pura verdade.

Hoje, com 41 anos, empresto com frequencia esta fala não só para pensar no crescimento dos meus filhos, mas também para pensar nas muitas fases da minha própria vida. E fico então, com a grande sensação de que a diferença na maneira como cada pessoa encara estas questões está num lugar muito simples: no olhar. Para saborear propriamente a jornada, seja ela qual for, é preciso um ¨certo olhar ¨- um olhar nato ou um olhar treinado, não importa, mas um olhar que seja indiscutivelmente generoso com a vida, que dê significados e transforme a poesia e o encantamento que estão escondidos por aí, apenas esperando para serem descobertos, em realidade em nossos devaneios. Para quem gosta de escrever, nem preciso dizer isto,  já que a escrita é, por definição, o lugar da grande intimidade com este olhar. O olhar transforma a palavra e a palavra transforma a vida. Felizmente – acredito eu – para melhor. Basta nos rendermos a ele!

Pequenas Histórias de Istambul

Outras pequenas histórias que vivemos em Istambul seguem abaixo (as primeiras – em itálico – foram registradas por mim, na época, num pequeno diário que consegui atualizar apenas durante os primeiros dias de viagem; transcrevo-as tal qual foram anotadas).

Negociação no Museu Arqueológico

Hoje a tarde passamos por um momento muito engraçado ao visitar o Museu Arqueológico de Istambul que diz muito da cultura e do jeito de funcionar do lugar. O Luis tirou a máquina da mochila para fotografar e o guarda fez sinal de que não podia, mas como não sabia falar inglês, levou-o até outro guarda da portaria para que este lhe explicasse melhor. O Luis perguntou novamente se não era permitido. Ele respondeu exatamente assim: “No it’s not allowed to take photos; but for you, well, I will let you take 3 or 4 pictures!”. Não acreditamos! Tivemos que nos segurar para não cairmos na gargalhada! Comentei que o sangue turco que corria nas veias era realmente diferente; mesmo lá onde não deveria haver nenhum espaço para negociação, ele deu um jeito. Nem pediu nada em troca: queria apenas mostrar o seu poder de barganha e o bom humor da hora!

Ida para Urksukai

A negociação do guarda com o taxista

Me lembrava vagamente deste dia, mas relendo o diário encontrei um relato com detalhes de um guarda que nos ajudou, do qual nem mesmo o Luis se lembrava. É incrível como a nossa memória vai se diluindo no tempo! Segue o texto:

Ontem decidimos fazer um passeio de ferry para o lado asiático do Bósforo (Urksukai) perto da hora do pôr-do-sol. A vista da cidade a partir do Bósforo nesta hora é realmente inacreditável: os palácios à beira do rio, as várias mesquitas já se confundindo com o fundo cor-de-rosa manchado do sol  e muitos barcos cruzando de vários pontos da cidade para todos os lados do estreito.

Ao chegar na parte asiática, resolvemos seguir as instruções do Guia Lonley Planet para ir até uma parte alta da cidade, onde teria uma das vistas mais lindas do pôr-do-sol. Logo tentamos perguntar para algumas pessoas como chegar onde queríamos e fomos socorridos por uma moça aparentemente turca, mas com jeito e fluência no inglês bem ocidentalizados. Aproximou-se e entrou também na conversa um guarda (falando em turco com ela e ouvindo suas traduções do que perguntávamos). Chegaram, então, à conclusão de que seria melhor subirmos de táxi, pois o ônibus só passava de hora em hora por lá. Rapidamente, o guarda chamou um táxi e já negociou ele mesmo com o taxista, dando inclusive uma bronca de antemão para que ele não cobrasse fora da tabela. Incrível! Situação sui generis. Pegamos o táxi com uma deliciosa sensação de estarmos fazendo alguma coisa diferente da maioria dos turistas: verdadeiramente “off the beaten track”. Afinal, deste lado do Bósforo, e mesmo no Ferry, não havia quase nenhum turista. O lugar para onde íamos era longe, longe, longe. Bem no alto da cidade mesmo. Esta parte da cidade tinha uma cara bem menos turística, com ares de cidade normal, onde as pessoas moram, fazem compras no super mercado ou padaria voltando do trabalho. Ao chegarmos no nosso destino final, veio a conta do taxímetro: 2 dólares e pouco! Ficamos até com pena do taxista achando que era barato demais para a enorme distância percorrida. A bronca do guarda com certeza teve grande efeito!

Continuando o passeio: O misterioso guia turco

O lugar era uma espécie de parque com um restaurante no meio e o sol já estava se pondo: a vista da cidade realmente era linda com a ponte ligando o lado Ocidental e a Ásia já toda iluminada pelos faróis dos carros. Resolvemos ir até o restaurante e lá encontramos na fila de espera dois rapazes do Sri Lanka que estavam em férias dos estudos em Londres. Junto deles estava outro rapaz que aparentemente parecia ser guia, pois disseram que ele que os havia trazido até lá para um jantar “realmente típico”. E, de fato, só havia turcos no restaurante. Logo nos demos conta de que eles tinham vindo no mesmo ferry que nós e, depois de conversarmos, eles acabaram nos convidando para jantarmos com eles na mesma mesa, uma vez que a lista de espera estava grande. A conversa foi muito boa e os rapazes sabiam algumas particularidades do Brasil curiosas até, como o fato de que era mais fácil para os brasileiros entenderem o espanhol dos países vizinhos do que o contrário. Depois do jantar, voltamos com uma certa pressa para não perdermos o último ferry de volta. Na chegada do outro lado do Bósforo, perguntamos discretamente a um dos rapazes do Sri Lanka quanto eles pagariam ao guia e se poderíamos contribuir também com alguma parte ou gorjeta. Ele então nos disse: “No, he’s a friend of ours!”. Imediatamente pensamos que já deviam se conhecer de Londres, mas ao perguntarmos sobre isto ele nos disse que não:“we know him from the Blue Mosque; we were there on Thursday and he just arrived close to us and started talking.” Ficamos meio confusos e pensamos: será um curioso choque de culturas? Não havia ficado muito claro nem mesmo para nós se o rapaz era um guia ou não, mas obviamente um turco não estaria passeando pela Mesquita Azul em plena quinta-feira durante o dia procurando por amigos! O rapaz disse que no início também pensou que ele iria cobrar alguma coisa, mas que depois viu que ele era “realmente um amigo”. Nos despedimos, então, separando nossos caminhos, um tanto quanto intrigados e pensando em qual seria o desfecho da curiosa história do relacionamento entre os rapazes do Sri Lanka e o rapaz turco…

A loja de tapetes e os copinhos mágicos de chá

Algumas das experiências que passamos foram curiosas e divertidas, porém esta, foi um pouco intimidadora, pelo menos para mim. Já num dos últimos dias de viagem, acabamos, não sei como, entrando em uma loja de tapetes. Realmente não sei como nos deixamos seduzir pelos vendedores, mesmo tendo lido em alguns guias sobre a necessidade de precaução em alguns tipos de situação e – diga-se de passagem – mesmo sem termos o menor interesse em levar tapetes para o Brasil conosco! Provavelmente foi um ímpeto de curiosidade. Quando nos demos conta, tínhamos sido levados para o segundo andar de um estranho prédio, para uma sala apertada com milhões de tapetes e 4 ou 5 caras insistindo em que olhássemos uma infinidade deles. Insistiam muito mesmo e não nos deixavam sair de jeito nenhum. Além disto, trouxeram chá, e mais uma vez foram incovenientemente insistentes. Dizíamos que não tínhamos interesse e que queríamos ir embora, mas não adiantava. Lembro-me claramente de ter ficado com o coração acelerado quando chegaram os chás em lindos copinhos turcos de vidro coloridos com bordas douradas (pareciam conter alguma poção mágica, como se tivessem saído diretamente das mil e uma noites). Fiquei só imaginando que poderia ter alguma coisa dentro deles para que, num passe de mágica, desmaiássemos e eles pudessem nos roubar o dinheiro e/ou os passaportes. O Luis viu minha apreensão e disse que apenas ele tomaria o chá e que eu não gostava de chá, para que eles parassem de insistir e eu ficasse mais tranquila. Só então, depois de muito tempo, conseguimos de alguma forma deixar claro que não compraríamos nada e que estávamos atrasados, fazendo com que eles nos deixassem sair. Porém, ainda assim, saí com um certo medo de que o chá oferecido repentinamente surtisse algum efeito estranho no Luis.

Os cartões de Istambul

Em outro dos itens listados por Pamuk em sua lista de melancolias da cidade, ele citava “o homem que vende cartões-postais no mesmo ponto há quarenta anos”. Quando li este trecho, lembrei-me que vários anos depois da viagem, quando estive certa vez na casa de uma grande amiga que havia estado em Istambul havia pouco tempo, vi em sua parede quadros feitos com cartões postais muito parecidos com alguns cartões que eu mesma comprara na nossa passagem por Istambul. Então, perguntei a ela em que parte da cidade ela os havia comprado e chegamos à conclusão de que deveria ser exatamente no mesmo lugar e do mesmo vendedor. Acabei eu mesma enquadrando os meus e colocando-os na parede. E, se vocês observarem os desenhos em preto e branco da cidade, verão que trazem realmente este ar de era esquecida no tempo (algo pitoresco para os turistas, mas com certeza carregado de alguma misteriosa melancolia – Cartões: Orient Publishing Service LTD.).

Istambul: Oriente ou Ocidente?

Depois de tanto tempo, e olhando em retrospectiva, fica a sensação de que o o aspecto que melhor caracteriza a cidade de Istambul é a síntese que ela representa da complexa contradição entre Ocidente e Oriente. Também no livro Istambul, Orhan Pamuk escreve o seguinte sobre este aspecto da cidade:

A maior virtude de Istambul é a capacidade que sua população tem de ver a cidade com olhos tanto orientais quanto ocidentais. As primeiras representações da história local na imprensa de Istambul foram exageros, do tipo tão apreciado por sir Richard Burton, o tradutor das Mil e uma noites…, fazendo o leitor sentir como se lesse acerca de uma civilização distante e estrangeira. Mesmo quando eu era criança, quando a cidade estava no seu pior, os moradores de Istambul sentiam-se excluídos boa parte do tempo. Dependendo de como a encarassem, sentiam que ela era ou oriental ou ocidental demais, e o desconforto resultante os fazia sentir que talvez não estivessem totalmente em casa.

Acredito que esta mistura nos permitiu justamente o contrário, ou seja, que o medo natural que sentimos ao estarmos em um lugar estranho, reconhecendo territórios, fosse se dissipando com o passar dos primeiros dias da viagem, permitindo que nos sentíssemos, de alguma forma, em casa. Mesmo assim, e mesmo na época, sabíamos que iríamos passar gradativamente de lugares mais ocidentalizados para entrarmos em países de culturas mais particulares e menos influenciadas pelo “conhecido”. Desta forma, a sensação de estar soltando gradativamente as amarras foi, particularmente para mim, uma sensação constante ao longo de toda a viagem.